Colômbia: entre Cila e Caríbdis

Beatrice E. Rangel

Por: Beatrice E. Rangel - 02/06/2026


Compartilhar:    Share in whatsapp

Os extremos parecem ter prevalecido na primeira fase da disputa eleitoral colombiana. O centro político foi relegado e, com ele, a possibilidade de uma alternativa moderada capaz de construir consenso, o que é fundamental para a prática democrática. Tudo indica que o país poderá acabar governado por uma das duas facções profundamente polarizadas, cujos projetos priorizam a concentração de poder em detrimento da expansão das liberdades civis.

A verdadeira questão não é qual dos dois candidatos prevalecerá, mas se algum deles compreende o desafio fundamental que a Colômbia enfrenta: preservar e fortalecer as instituições que permitiram ao país resistir, durante décadas, ao ataque do autoritarismo, da violência política e da fragmentação social.

Diferentemente de outras nações latino-americanas que sucumbiram a projetos hegemônicos, a Colômbia demonstrou uma notável capacidade de resiliência institucional. Seu sistema judiciário, a imprensa relativamente livre, os órgãos eleitorais e a sociedade civil ativa serviram como contrapesos às tentativas de concentração excessiva de poder. Portanto, a prioridade do próximo governo deve ser fortalecer essas instituições, e não enfraquecê-las.

No entanto, as propostas que dominam o debate parecem estar caminhando na direção oposta.

Por um lado, Iván Cepeda propõe expandir o papel do Estado por meio de novos programas sociais e da ampliação dos já existentes. Propõe também aprofundar a estratégia de negociação com grupos armados no âmbito da política conhecida como “Paz Total”, promovida pelo presidente Gustavo Petro. O objetivo declarado é integrar esses atores à vida política e social do país. Contudo, os resultados obtidos até o momento suscitam sérias dúvidas sobre a eficácia dessa estratégia na redução da violência e na restauração da autoridade estatal em grandes áreas do território nacional.

Cepeda também defendeu reformas destinadas a corrigir a concentração histórica da propriedade de terras rurais. Embora o problema da distribuição desigual de terras seja real e constitua uma das raízes profundas do conflito colombiano, qualquer reforma deve equilibrar cuidadosamente os objetivos de justiça social com a necessidade de preservar a produtividade agrícola e a segurança jurídica dos investimentos.

Por outro lado, Abelardo de la Espriella propõe uma resposta centrada no reforço da segurança, na construção de novas prisões de alta segurança, na redução do tamanho do Estado e numa maior liberalização económica. A sua abordagem baseia-se na premissa de que a autoridade do Estado deve ser restabelecida através de uma demonstração inequívoca de força.

No entanto, nenhum dos projetos parece abordar adequadamente o problema estrutural que ameaça a democracia colombiana: a erosão progressiva das instituições políticas e administrativas responsáveis ​​por canalizar os conflitos sociais dentro de uma estrutura democrática.

A estratégia de confrontar a violência unicamente por meio do aumento da coerção corre o risco de reproduzir dinâmicas que alimentam o conflito há décadas. Grupos armados ilegais que operam na Colômbia desenvolveram fontes independentes de financiamento baseadas em economias ilícitas, como o tráfico de drogas, o tráfico de armas, a mineração ilegal e o contrabando. Sua capacidade de adaptação torna improvável que uma solução puramente militar alcance resultados duradouros.

Ao mesmo tempo, a política de concessões e negociações permanentes, sem um fortalecimento paralelo da presença institucional do Estado, também não parece oferecer uma solução sustentável.

O conflito armado colombiano deixou mais de oito milhões de deslocados internos e alterou profundamente a estrutura econômica e social de vastas regiões rurais. Milhões de hectares foram abandonados, enquanto organizações criminosas preencheram os vácuos de poder deixados pelo Estado. Essa situação é agravada por um sistema fragmentado, burocrático e incompleto de registro e titulação de terras, que, em muitos casos, é incapaz de garantir direitos de propriedade claros e efetivos.

Sem uma reforma profunda dessas instituições, qualquer estratégia de segurança ou reconciliação corre o risco de fracassar. A violência não diminuirá enquanto existirem territórios onde a autoridade legítima do Estado é fraca ou inexistente.

Uma situação semelhante existe na esfera econômica. A liberalização do comércio e a integração nos mercados globais são objetivos desejáveis, mas seus benefícios não podem ser plenamente aproveitados sem investimentos contínuos em infraestrutura, educação, inovação e fortalecimento da competitividade empresarial. O Acordo de Livre Comércio com os Estados Unidos abriu oportunidades significativas, mas limitações estruturais ainda impedem que muitos setores produtivos as aproveitem ao máximo.

Em última análise, o grande desafio da Colômbia não é simplesmente escolher entre esquerda e direita. A questão fundamental é determinar qual projeto está melhor preparado para fortalecer as instituições democráticas que garantem a liberdade, o Estado de Direito e o desenvolvimento econômico.

Quando as instituições enfraquecem, o extremismo prospera. E quando o extremismo domina a política, as instituições costumam ser as primeiras vítimas.

Portanto, o dilema que a Colômbia enfrenta transcende os candidatos e suas plataformas. Em última análise, trata-se de saber se o país continuará a fortalecer as bases institucionais que lhe permitiram resistir a tantas crises ou se, ao contrário, sucumbirá a um dos dois perigos evocados pela mitologia grega: Cila ou Caríbdis.


As opiniões aqui publicadas são de inteira responsabilidade de seus autores.