Brasil: a miragem dos analistas latino-americanos

Beatrice E. Rangel

Por: Beatrice E. Rangel - 06/10/2026


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Antes mesmo da apuração dos votos no Brasil ser concluída, diversos analistas já comemoravam o que descreviam como uma vitória da direita. Interpretação semelhante acompanhou os triunfos de Nayib Bukele em El Salvador, Javier Milei na Argentina, Santiago Peña no Paraguai, Daniel Noboa no Equador, José Antonio Kast no Chile e, mais recentemente, Abelardo de la Espriella na Colômbia. A ascensão de Flávio Bolsonaro reforça essa interpretação, embora a presidência brasileira ainda precise ser decidida no segundo turno, em 25 de outubro.

O retábulo evoca um passado não tão distante, quando muitos governos latino-americanos eram liderados por figuras identificadas com a direita. Durante a Guerra Fria, doutrinas anticomunistas sustentaram regimes militares como os do Brasil (1964-1985), do Chile sob Augusto Pinochet (1973-1990), da Argentina (1976-1983) e do Uruguai (1973-1985), bem como a longa ditadura de Alfredo Stroessner no Paraguai (1954-1989). O fim desses regimes resultou de diversos processos: mobilizações populares, crises econômicas, derrotas militares, negociações políticas e até mesmo golpes internos. Transições subsequentes abriram caminho para governos democráticos de diferentes orientações. Contudo, a alternância eleitoral nem sempre se traduziu em instituições mais fortes.

Vale a pena perguntar, portanto, se estamos testemunhando a ascensão de um direito democrático ou uma mudança de rótulo que permite a perpetuação das estruturas de poder que aqui chamamos de feudais: privilégios hereditários, dependência pessoal e captura do Estado por interesses privados.

A distinção é fundamental. A direita democrática, em sua forma liberal e constitucional, compartilha com outras correntes democráticas um legado do Iluminismo: limites ao poder, igualdade perante a lei e respeito às instituições. A isso, geralmente, acrescenta a defesa da iniciativa privada, da concorrência e da disciplina fiscal. A América Latina foi influenciada pelas ideias iluministas, mas sua incorporação à vida institucional foi desigual e incompleta. Daí a persistência de uma contradição: adornos modernos sobre estruturas de privilégio que resistem à mudança.

Esses princípios nem sempre orientam os movimentos que hoje reivindicam o rótulo de direita. A liberdade econômica é facilmente invocada, mas torna-se incômoda quando exige o desmantelamento de proteções, subsídios ou intervenções estatais que garantem rendimentos para setores poderosos. Existem diferenças significativas entre seus programas — Milei, por exemplo, fez da liberalização econômica um princípio central —, mas o teste decisivo reside em determinar se as reformas ampliam a concorrência e as oportunidades ou simplesmente redistribuem privilégios.

Na esfera institucional, a contradição é igualmente evidente. Reformas constitucionais são utilizadas para facilitar a reeleição ou alterar as regras eleitorais, enquanto outras decisões são justificadas pela urgência da segurança ou pela necessidade de transformar a economia. A política prisional de El Salvador, as medidas excepcionais no Equador e as restrições implementadas por Milei em relação à cidadania e ao acesso de estrangeiros a certos serviços públicos levantam questões sobre o devido processo legal, a proporcionalidade e os direitos individuais. A eficácia de uma política não basta para lhe conferir legitimidade democrática.

A independência judicial é outro teste essencial. As pressões sobre juízes e tribunais permeiam o panorama ideológico da região. Embora existam diferenças substanciais entre os países e graus variáveis ​​de resistência institucional, nenhuma força política deve estar isenta de escrutínio. Uma democracia não se mede pela docilidade de seus juízes, mas sim por sua capacidade de decidir sem se submeter ao governante do momento.

Vista dessa perspectiva, as forças que se autodenominam de direita democrática ainda têm muito a provar: respeito pela separação dos poderes, igualdade perante a lei e um compromisso com a liberdade econômica que não se reduza à proteção de interesses particulares. Enquanto esses princípios não forem traduzidos em práticas de governança, continuaremos a ver estruturas de poder com raízes aristocráticas tentando administrar as democracias modernas.

O movimento liderado por Flávio Bolsonaro deve ser analisado sob os mesmos critérios. Seu avanço eleitoral expressa o desejo de mudança em uma parcela considerável do eleitorado brasileiro, mas não demonstra, por si só, uma renovação democrática. Tampouco a trajetória de Luiz Inácio Lula da Silva o exime de responder aos desafios do século XXI. A meu ver, Fernando Henrique Cardoso permanece uma figura proeminente por sua tentativa de conciliar a modernização econômica com a consolidação institucional. O desafio que resta é transformar esses objetivos em prática sustentada, transcendendo as lideranças individuais.

A insuficiente liberdade econômica limita o investimento, a produtividade e a criação de oportunidades necessárias para reduzir a pobreza. Mecanismos institucionais de controle e equilíbrio frágeis restringem a participação da sociedade civil e facilitam a captura do Estado. Por sua vez, a deterioração dos serviços públicos amplia o fosso entre a igualdade proclamada por lei e a desigualdade vivenciada pelos cidadãos.

Diante dessa erosão do poder, a população busca corrigir o rumo substituindo seus líderes. Assim, chegam ao poder líderes que se apresentam como representantes da direita ou da esquerda, sem que suas práticas necessariamente se alinhem aos princípios que invocam. Eles satisfazem a demanda imediata de substituir o governante, mas deixam inacabada a tarefa mais difícil: transformar o poder e fortalecer a democracia. A ilusão dos analistas reside em confundir essa substituição com uma transformação institucional.


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