Venezuela: um evento imprevisível muda as regras do jogo.

Beatrice E. Rangel

Por: Beatrice E. Rangel - 29/06/2026


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Descrever a magnitude da tragédia que a Venezuela enfrenta hoje é quase impossível. Após quase três décadas de declínio institucional, econômico e social, o país também foi atingido por um par de terremotos devastadores que destruíram cidades inteiras e sepultaram, junto com milhares de casas, grande parte da esperança de uma população exausta.

O desastre ocorreu justamente quando começavam a surgir expectativas de uma possível transição política. Nesse cenário hipotético, a captura de Nicolás Maduro pelas autoridades americanas inaugurou um período de incerteza, mas também de renovadas esperanças democráticas. Embora a autoridade temporariamente encarregada do governo viesse do mesmo aparato político responsável pelo desmantelamento progressivo das instituições venezuelanas, uma parcela significativa da sociedade acreditava que o país finalmente estava trilhando o caminho da recuperação democrática.

Esse sentimento, no entanto, sofreu uma transformação radical com a tragédia.

Enquanto milhares de cidadãos se mobilizavam espontaneamente para remover os escombros, resgatar sobreviventes e auxiliar os afetados, a resposta oficial foi lenta e insuficiente. A demora das autoridades contrastou fortemente com a rápida ação da sociedade civil e a chegada de brigadas de resgate internacionais do México, El Salvador, Colômbia e, posteriormente, da Alemanha, Espanha e Israel.

A percepção pública acabou sendo tão importante quanto os próprios eventos. Para muitos venezuelanos, as imagens de voluntários e socorristas estrangeiros trabalhando incansavelmente, muitas vezes sem apoio logístico das autoridades nacionais, tornaram-se uma poderosa metáfora para o esgotamento do modelo político vigente.

Grandes crises frequentemente revelam, de forma contundente, os pontos fortes e fracos de um Estado. Neste caso, a emergência expôs a lacuna entre uma sociedade capaz de se organizar em solidariedade e instituições cuja capacidade de resposta estava gravemente comprometida. Em última análise, sua única função foi controlar jornalistas estrangeiros, bloquear as redes sociais, obstruir o trabalho das equipes de resposta a emergências e desviar a ajuda internacional.

Portanto, a tragédia pode se tornar mais do que apenas uma catástrofe humanitária. Ela também pode representar uma virada política.

Assim que os esforços de resgate terminarem e a imensa tarefa de reconstruir casas, comunidades e vidas começar, é provável que grande parte da sociedade venezuelana volte a colocar a mudança política no centro de suas prioridades. Para muitos cidadãos, a reconstrução material dificilmente será sustentável sem uma profunda reconstrução institucional.

É precisamente nesse contexto que o conceito de "cisne negro" se torna relevante, desenvolvido por Nassim Nicholas Taleb para descrever eventos extraordinários, altamente improváveis ​​e impossíveis de antecipar, cujo impacto altera profundamente as dinâmicas existentes. Na política, um cisne negro não apenas modifica o equilíbrio de poder; ele transforma a percepção coletiva do que parecia possível ou inevitável.

O par sísmico que atingiu a Venezuela possui muitas dessas características. Além da devastação humana e material, ele introduz um elemento inesperado que perturba os cálculos de todos os atores políticos. Governos, oposições, aliados internacionais e até mesmo os próprios cidadãos são forçados a repensar estratégias concebidas para uma realidade que já não existe.

A história demonstra que muitas mudanças políticas não decorrem exclusivamente de processos eleitorais ou decisões diplomáticas. Frequentemente, eventos extraordinários — guerras, pandemias, crises econômicas ou desastres naturais — aceleram transformações que pareciam distantes.

Se este terremoto acabar se tornando um evento "cisne negro", não será apenas pela magnitude do desastre, mas porque terá alterado a relação entre os cidadãos e o poder. E quando essa relação muda irreversivelmente, as regras do jogo político também mudam.


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