
Por: Carlos Sánchez Berzaín - 03/08/2026
Ao instalarem as ditaduras do socialismo do século XXI como uma expansão da ditadura cubana na Venezuela, Nicarágua, Equador e Bolívia, substituíram os elementos da democracia pelo terrorismo de Estado, pela falsificação de instituições, pela substituição de constituições, leis, órgãos, funcionários, sistemas de justiça e educação, e até mesmo de condutas sociais. Diante do seu fim, essas ditaduras “transformaram o conceito de transição em uma narrativa manipuladora para ganhar tempo e manter o poder”, tornando urgente a substituição da agenda de transição por uma de “restauração da democracia”.
Em sentido estrito, a transição política é “um processo de transformação radical das regras e mecanismos de participação e competição política, do autoritarismo ou ditadura para a democracia”. Em sentido geral, é “um processo de mudança pelo qual um regime político e/ou econômico preexistente é substituído por outro, o que implica a substituição de valores, normas, regras do jogo e instituições”.
Os elementos essenciais da democracia, estabelecidos desde 2001 pela Carta Democrática Interamericana, são: “o respeito pelos direitos humanos e liberdades fundamentais; o acesso e o exercício do poder, sujeitos ao Estado de Direito; a realização de eleições periódicas, livres e justas, baseadas no sufrágio universal e secreto, como expressão da soberania do povo; o sistema plural de partidos e organizações políticas; e a separação e independência dos poderes públicos”.
Existem cinco países nas Américas onde o desaparecimento e a substituição de todos os elementos essenciais da democracia foram perpetrados: Cuba, a ditadura que chefia o sistema transnacional do crime organizado e detém o poder há mais de 67 anos; a Venezuela, que sob Hugo Chávez resgatou a ditadura cubana em 1999 e forneceu os meios para sua expansão ditatorial, deixando a Venezuela como uma ditadura central satélite; a Bolívia, que, após o golpe de 2003, viu Evo Morales assumir o poder em 2006 e substituir a República em 2008, criando o Estado Plurinacional; a Nicarágua, com Daniel Ortega, que reassumiu o poder em 2007, reinstaurando a ditadura; e o Equador, que, sob Rafael Correa, estabeleceu um Estado plurinacional ditatorial por mais de 10 anos, a partir de 2007.
A democracia foi substituída pelo terrorismo de Estado, perseguição, presos políticos e exilados, crimes, corrupção, usurpação constitucional e institucional, um narcoestado, figuras de oposição funcionais e ditadura eleitoral: em Cuba, a ditadura sobreviveu e se expandiu até se tornar a líder da América Latina em sua expressão mais vergonhosa na Cúpula das Américas de 2015 no Panamá; na Venezuela, que atuou como a principal ditadura até a morte de Chávez em 2013 e, em seguida, instalou Nicolás Maduro; na Bolívia, que foi subjugada por Evo Morales e depois por Luis Arce; na Nicarágua, que se tornou um regime controlado por Ortega/Murillo; e no Equador, subjugada por Correa até que Lenin Moreno mudou o rumo.
A primeira ruptura com as ditaduras — que o relatório mais recente do Departamento de Estado chama de comunismo do século XXI — ocorreu no Equador quando o presidente Lenin Moreno optou pela democracia. Desde 2017, quando Moreno começou a restaurar os elementos essenciais da democracia, o Equador enfrenta um processo de transição que sua presidência sozinha não conseguiu concluir. Esse processo levou ao encurtamento do mandato do presidente Guillermo Lasso, ao assassinato do candidato presidencial Fernando Villavicencio e à árdua tarefa de desmantelar o narcoestado sob o governo do presidente Daniel Noboa. Com o golpe de 2019 contra Moreno e as crises extremamente graves que se refletem hoje na resistência ao narcoterrorismo, o correísmo — expressão da ditadura remanescente — continua sendo um fator de poder político. Quase dez anos de uma transição que ainda não terminou, perpetuando a impunidade e a instabilidade institucional.
Na Bolívia, em 2019, com a renúncia de Evo Morales devido a fraudes e crimes flagrantes, surgiu o governo de Jeanine Añez, uma esperança frustrada de continuidade sob o disfarce de transição. O resultado foi Luis Arce, aliado de Morales, que, ao confrontar a corrupção do ditador, levou a ditadura à ruína em 2025, abrindo caminho para Rodrigo Paz. Paz recebeu a presidência, mas não o poder, e agora corre o risco de ser responsabilizado por mais de 20 anos de ditadura por continuar liderando o narcoestado plurinacional. Não há transição, muito menos mudança.
A Venezuela, em processo de libertação desde a captura do ditador Nicolás Maduro pelos Estados Unidos em 3 de janeiro de 2016, enfrenta um processo sem precedentes de desmantelamento das redes de narcoterrorismo e crime organizado no poder, controladas por seus próprios mafiosos sob a tutela dos EUA. O termo "transição" é central na discussão sobre o fim da ditadura. Embora tenha havido progresso significativo, membros do regime ditatorial continuam a ocupar cargos no governo e a manipular o poder.
Com a transição iniciada há quase 10 anos no Equador, o fracasso na Bolívia, a transição em curso na Venezuela, Cuba sob ultimato dos EUA e a Nicarágua sob ditadura plena, a realidade objetiva demonstra que a transição, como processo, permite que sistemas ditatoriais sobrevivam por meio de uma retirada ordenada, ganhando tempo e até mesmo lançando contra-ataques. As ditaduras não foram desmanteladas; elas não chegaram ao fim. Na melhor das hipóteses, elas entregam o governo, mas mantêm o poder, e quando seu poder diminui, elas retornam ao narcoterrorismo de suas origens.
A teoria ensina que existem "dois modos genéricos principais de transição: reforma e ruptura", e a realidade demonstra que o modo de reforma - na prática - mantém o sistema, as leis da ditadura, a impunidade e a participação do crime na política.
*Advogado e Cientista Político. Diretor do Instituto Interamericano para a Democracia.
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