
Por: Beatrice E. Rangel - 25/03/2026
Hoje, quando se menciona a Venezuela, a reação é quase sempre a mesma: sobrancelhas arqueadas, silêncio constrangedor ou expressões de frustração. Dependendo da perspectiva, as emoções predominantes variam da raiva à resignação — e, ocasionalmente, à esperança.
Mesmo nos círculos políticos dos EUA, há uma notável relutância em se engajar em uma discussão abrangente sobre a Venezuela: Quais são os objetivos? Qual é a estratégia? E o que os Estados Unidos e o hemisfério ganharão, em última análise, com o que se assemelha cada vez mais a um protetorado moderno?
Para entender o presente da Venezuela, é preciso olhar para sua história. Em uma única frase, eu resumiria essa história da seguinte forma: a Venezuela — e grande parte da América Latina — assemelha-se a uma espécie de "Parque Jurássico" institucional, onde antigas estruturas políticas e econômicas continuam a moldar as realidades modernas.
Quando o Papa Alexandre VI dividiu o Novo Mundo entre Espanha e Portugal, ele fez mais do que alocar território: exportou o feudalismo. Por mais de cinco séculos, grande parte da América Latina operou sob variações da economia política medieval. Nesses sistemas, a ordem não depende de instituições cívicas fortes, mas de líderes fortes. A riqueza não deriva da criação, mas da extração. O Estado assume a propriedade dos recursos naturais e distribui concessões, gerando rendas em vez de fomentar a produtividade.
Esse legado tem consequências profundas. As economias tornam-se mercantilistas; a política, corporativista. O poder é negociado entre elites — militares, religiosas, empresariais e políticas — em vez de emanar da sociedade civil organizada. Esses arranjos são inerentemente instáveis, pois as mudanças no equilíbrio de poder perturbam continuamente a estabilidade. Portanto, não é surpreendente que a região tenha tido dificuldades para consolidar instituições democráticas duradouras.
Na maioria dos sistemas capitalistas bem-sucedidos, os recursos naturais se tornam ativos produtivos somente quando combinados com a iniciativa privada e a geração de riqueza. A Venezuela, em contrapartida, permaneceu extremamente dependente da busca por privilégios ao longo de toda a sua história.
Esse padrão começou cedo. Em sua terceira viagem, Cristóvão Colombo chegou à costa leste da Venezuela e encontrou ricos bancos de pérolas. A Coroa Espanhola agiu rapidamente para explorar essa riqueza. A cidade de Nueva Cádiz, fundada em 1527, tornou-se o primeiro assentamento europeu na América do Sul. No entanto, em menos de uma década, a superexploração esgotou o recurso.
O colapso de Nueva Cádiz abriu um precedente. Diante da crise econômica, as elites locais não reformaram as instituições; em vez disso, recorreram a homens fortes. Uma dessas figuras foi Lope de Aguirre, cuja breve e violenta intervenção exemplificou um padrão recorrente: crise econômica seguida pela ascensão de lideranças autoritárias, mais destruição e ainda maior instabilidade.
A mesma dinâmica reapareceu durante a ascensão e queda da economia do cacau no século XVIII. À medida que os movimentos de independência ganhavam força, as elites latifundiárias — temendo perder seus privilégios — aliaram-se a líderes militares brutais como José Tomás Boves. Suas campanhas devastaram tanto o movimento de independência quanto a base produtiva da economia, mergulhando o país em prolongadas dificuldades.
Mais tarde, o café substituiu o cacau como principal produto de exportação da Venezuela, e por um tempo o país prosperou. No entanto, os conflitos internos persistiram, especialmente em relação à terra e à estrutura social. Líderes como Ezequiel Zamora mobilizaram o descontentamento popular, mas o fizeram por meio de confrontos violentos, em vez de reformas institucionais.
A descoberta de petróleo no início do século XX trouxe riqueza sem precedentes e um período de relativa estabilidade. Entre 1959 e 1998, a Venezuela foi amplamente considerada uma democracia funcional. No entanto, essa estabilidade mascarava profundas fragilidades estruturais. A excessiva dependência econômica do petróleo, aliada a políticas protecionistas, sufocou a diversificação e o crescimento. Com a estagnação dos preços do petróleo, a economia também estagnou, gerando frustração generalizada entre a classe média.
Esse ambiente preparou o terreno para a ascensão de Hugo Chávez, um líder golpista fracassado que se aproveitou da desilusão popular. Após crises políticas, Chávez alinhou cada vez mais a Venezuela com Cuba, transformando o país em um Estado satélite. Com o tempo, a erosão institucional se acelerou, culminando no sistema autoritário consolidado sob Nicolás Maduro.
Essa trajetória histórica revela diversas características duradouras:
• Uma dependência persistente da busca de privilégios em vez da criação de riqueza
• Instituições cívicas frágeis e responsabilidade social limitada
• Uma tendência recorrente de buscar salvação na liderança de homens fortes
Nessas condições, a transformação da Venezuela em um Estado dominado por redes criminosas é menos uma anomalia e mais uma continuação de padrões históricos. Nas últimas duas décadas, uma enorme riqueza nacional foi dilapidada, enquanto as estruturas estatais foram reaproveitadas para facilitar atividades ilícitas, incluindo o narcotráfico, a mineração ilegal e o crime transnacional.
Diante dessa realidade — e com a limitada confiança nas elites tradicionais — os Estados Unidos adotaram uma postura cada vez mais intervencionista, que alguns caracterizam como o estabelecimento de um protetorado moderno.
Isso levanta uma questão crucial: quanto tempo durará esse acordo?
Embora os precedentes históricos sejam limitados, certas dinâmicas merecem consideração. As organizações criminosas tendem a manter-se coesas quando os lucros são abundantes. Contudo, no caso da Venezuela, o declínio econômico e o aumento do escrutínio internacional reduziram significativamente essas relações de coesão. As operações ilícitas, que dependem do sigilo, estão agora sob pressão constante.
Com a diminuição dos recursos, é provável que surjam fraturas internas. As rivalidades se intensificam, as lealdades enfraquecem e o sistema torna-se vulnerável ao que a ciência política descreve como "implosão".
No entanto, o colapso de um sistema como esse é apenas o começo. A tarefa muito mais difícil é a sua reconstrução.
Reconstruir instituições exige mais do que remover um regime: exige cultivar uma cultura política baseada na responsabilidade, na competição e no serviço público. Esse processo é inerentemente de longo prazo. Mesmo em condições favoráveis, restaurar a governança democrática e a funcionalidade econômica pode levar uma década ou mais.
Este pode não ser o resultado que muitos esperam. No entanto, dada a profundidade da decadência institucional e do colapso da infraestrutura na Venezuela, não existem soluções rápidas. Desmantelar as estruturas criminosas enraizadas e reconstruir um Estado viável exigirá compromisso contínuo e, acima de tudo, tempo.
Essa é a realidade que a Venezuela enfrenta hoje.
As opiniões aqui publicadas são de inteira responsabilidade de seus autores.