Peru: fim da festa

Beatrice E. Rangel

Por: Beatrice E. Rangel - 10/06/2026


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O Peru enfrenta o mesmo dilema de cinco anos atrás: a incapacidade da autoridade eleitoral de organizar o processo eleitoral de forma eficaz e eficiente nas áreas mais remotas do país. Como resultado, muitas seções eleitorais carecem de materiais adequados ou de pessoal completo no dia da eleição, o que dificulta determinar com certeza se o processo foi realizado de acordo com os procedimentos estabelecidos por lei.

Quando a diferença entre os candidatos é grande, essas falhas sistêmicas podem parecer irrelevantes. No entanto, em uma eleição marcada por intensa polarização política e margens extremamente estreitas, tais deficiências podem comprometer a própria legitimidade do sistema democrático. Nenhum dos lados aceitará resultados que não confirmem sua própria vitória. É assim que qualquer democracia cujo pilar fundamental seja a soberania popular, expressa por meio da eleição de seus líderes, começa a ruir.

A polarização acentuada que afeta a democracia peruana tem diversas raízes. Uma delas é a incapacidade da economia de absorver a força de trabalho que o país gera anualmente. Como resultado, aproximadamente 72% da população economicamente ativa trabalha no setor informal. Contudo, esse setor representa cerca de 43% da atividade econômica e tem desempenhado um papel crucial na expansão das exportações agrícolas.

A segunda causa é, sem dúvida, a crise educacional. A educação no Peru é marcada por sérios problemas estruturais, profundas disparidades entre as áreas urbanas e rurais e alarmantes lacunas de aprendizagem. Soma-se a isso a baixa qualidade dos serviços públicos e significativas deficiências de infraestrutura.

Tudo isso leva à conclusão de que a democracia peruana apresenta muitas desvantagens que dificultam a superação da polarização que opõe representantes do setor informal aos da economia formal, organizada e dinâmica. Ambos os grupos representam aproximadamente metade do país e parecem encarar a competição política como um jogo de soma zero.

Portanto, a tarefa mais urgente para qualquer um dos atores no conflito é transformar esse jogo de soma zero em um jogo de soma variável, no qual ambos os lados percebam benefícios derivados da interação cívica. Em vez de se confrontarem constantemente, eles devem encontrar incentivos para cooperar.

No entanto, para alcançar esse objetivo, é essencial começar por estabilizar o sistema político. O ingrediente fundamental para a mudança é o investimento contínuo em infraestrutura, saúde e educação. Em um país onde os líderes mal conseguem se manter no poder por cerca de vinte e quatro meses, é praticamente impossível desenvolver a infraestrutura necessária para impulsionar o crescimento. Aeroportos, rodovias, pontes e barragens exigem anos de planejamento, construção e financiamento.

Além disso, todo esse processo exige a mobilização de recursos de investimento substanciais. Se essa situação não mudar em breve, o Peru poderá perder o status econômico estável de que desfrutou nas últimas duas décadas. Em outras palavras, a festa acabará: o fim da dissociação entre uma economia relativamente sólida e um sistema político cada vez mais disfuncional.


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