
Por: Beatrice E. Rangel - 28/04/2026
O anúncio dos Emirados Árabes Unidos de que estão deixando a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) gerou previsões sobre o possível fim da organização que moldou a história da energia global desde meados do século XX.
Essas previsões, no entanto, parecem não levar em consideração elementos-chave da história da organização, a transição energética e os eventos econômicos que conferem vitalidade e relevância à instituição.
O primeiro fator a ser considerado é a resiliência da organização. A OPEP sobreviveu a choques muito piores. Seu fim foi declarado inúmeras vezes, após a superprodução de petróleo da década de 1980, a revolução da extração de petróleo das formações de xisto que cobriam os grandes reservatórios nos EUA e repetidas disputas internas. Mas a realidade histórica é que alguns membros deixaram a organização, como é o caso do Catar e do Equador. Este último entrou e saiu diversas vezes sem que ninguém percebesse. A OPEP se adapta às flutuações do mercado ou à saída de membros reduzindo a oferta, não entrando em colapso. A resiliência da organização decorre de sua função primordial, que nada mais é do que coordenar a oferta entre os principais exportadores para influenciar os preços globais do petróleo.
Em segundo lugar, antes de tirarmos conclusões precipitadas, devemos considerar o peso relativo dos Emirados Árabes Unidos dentro da OPEP. Essa nação não é o centro de gravidade da OPEP. Ela tem sua influência, mas a espinha dorsal da OPEP continua sendo composta pela Arábia Saudita, Irã, Iraque e Kuwait. E dentro desse grupo, a Arábia Saudita é a potência dominante, porque sua capacidade de produção e perspicácia geopolítica lhe conferem um papel de equilíbrio no mercado global de petróleo. Com a saída dos Emirados Árabes Unidos, a OPEP perde um membro relativamente disciplinado e a pressão de um país que constantemente exige o aumento das cotas de produção. A OPEP, no entanto, não perderá sua capacidade de definir os preços do petróleo no mercado global devido à saída dos Emirados Árabes Unidos.
O maior problema reside na tensão interna, e não na saída de um membro. Os Emirados Árabes Unidos têm tido confrontos periódicos com a OPEP relativamente à sua quota de produção. A este respeito, argumentam que investiram fortemente na expansão da sua capacidade produtiva e, portanto, a sua quota deveria ser maior. Esta posição dos Emirados Árabes Unidos reflete um profundo problema estrutural que aflige a OPEP: alguns membros querem preços mais elevados (restringindo a oferta), enquanto outros querem volumes maiores (maximizando as receitas atuais).
Esse conflito — e não a saída de um membro — é o que poderia aniquilar a OPEP a médio ou longo prazo.
O período energético que se avizinha (2035-2045) promete ser uma era pendular. Ou seja, com flutuações de preços à medida que as reservas de petróleo de xisto dos Estados Unidos se esgotam; o mundo avança em direção à eletrificação de forma irregular; e as fontes de energia alternativas ganham força. Nesse cenário, a OPEP continuará sendo um ator importante na economia global. Mas seu papel não será central. Ela assumirá o protagonismo quando houver escassez de petróleo para equilibrar o mercado. Em outras palavras, seu papel será intermitente, com os preços determinados pela interação entre oferta e demanda, e a OPEP intervindo como uma força reguladora. Da mesma forma, o poder geopolítico será definido pela fonte de energia que assumir o papel central, deslocando o petróleo para uma posição secundária ou terciária. Mas isso ainda está a algumas décadas de distância. Considere o ciclo carvão-petróleo, por exemplo. O petróleo não "eliminou" o carvão da noite para o dia. Foram necessários cerca de 60 a 80 anos (aproximadamente das décadas de 1880 a 1960) para que o petróleo ultrapassasse o carvão como a principal fonte de energia global — e mesmo assim, o carvão não desapareceu. Neste século, as transformações provavelmente serão mais rápidas. A internet, por exemplo, levou apenas vinte anos para substituir as telecomunicações tradicionais. Mesmo assim, o petróleo provavelmente continuará sendo uma fonte de energia para alguns usos industriais e domésticos ao longo deste século. Com menos destaque, mas sem desaparecer. E enquanto houver petróleo, provavelmente haverá a OPEP.
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