
Por: Beatrice E. Rangel - 14/10/2026
No dia 25 de outubro, o povo brasileiro dará seu veredito sobre quem os governará pelos próximos quatro anos. Flávio Bolsonaro parece estar se beneficiando da queda de popularidade de Lula e do profundo cansaço que sua figura evoca em uma parcela do eleitorado. O ex-líder dos trabalhadores brasileiros tornou-se, para muitos, uma espécie de marionete de mágico: repete slogans sem traduzi-los em iniciativas que estejam alinhadas às aspirações de seus eleitores. Dedicou boa parte de seu terceiro mandato a criticar os Estados Unidos, promover a integração latino-americana e prometer que o Brasil figurará entre as cinco economias mais bem-sucedidas do mundo. Contudo, mesmo considerando uma taxa de crescimento de 3% como referência, esse desempenho fica aquém do das três estrelas regionais de crescimento citadas nesta avaliação: Guiana, com 12,2%; República Dominicana, com 4,6%; e Panamá, com 4,1%.
Mas avaliar o legado de Lula exige mais do que simplesmente comparar taxas de crescimento. Requer também mensurar o alinhamento entre suas decisões e os objetivos daqueles que o elegeram. Segundo as pesquisas de opinião consideradas nesta análise, seus eleitores esperavam que o idealizador do Bolsa Família, instrumento eficaz no combate à pobreza, também criasse as condições para a realização do sonho da casa própria. Quarenta e quatro por cento dos brasileiros apontam essa aspiração como seu principal objetivo. Segurança é outra prioridade: 60% reclamam da insegurança nas ruas, parques e outros espaços públicos. Soma-se a isso o desejo de independência econômica: 56% aspiram a ter recursos para criar um negócio próprio e autossustentável.
Quando essas aspirações são contrastadas com os resultados percebidos das políticas de Lula, surge uma desconexão. Não se trata de falta de programas habitacionais ou de apoio econômico por parte do governo, mas sim de que, para uma parcela dos brasileiros, essas políticas não se traduziram em melhorias suficientes no cotidiano. Soma-se a essa discrepância o tom cada vez mais ácido de Lula, e fica mais claro por que tantos eleitores acreditam que é hora de uma mudança de liderança.
Isso abre uma oportunidade política para Flávio Bolsonaro, favorecida pelo desencanto com Lula, mas que não garante sua vitória. Se chegar à presidência, a questão decisiva será se ele compreenderá as prioridades de seus eleitores e fará delas o foco de seu governo. Se, por outro lado, dedicar recursos e energia à construção de uma rede de grupos políticos de direita, negligenciando os sonhos daqueles que o elegeram, poderá limitar seu tempo no poder a um único mandato. Quando um líder ignora as razões que fundamentaram sua eleição, perde legitimidade política e facilita a ascensão de alguém que parece melhor representar as expectativas dos cidadãos. A política, então, torna-se um jogo de cadeiras: os eleitores removem a cadeira do governante e procuram um substituto.
A alternância de poder faz parte da democracia: os cidadãos elegem um representante da soberania e podem retirar sua confiança. O problema surge quando uma sucessão de decepções impede o governo de sustentar as políticas necessárias para resolver dificuldades que exigem tempo. Se a frustração se instala durante os primeiros vinte meses de um governo, reconquistar a confiança exige resultados extraordinários, difíceis de alcançar em tão pouco tempo. O eleitorado então inicia a busca por um sucessor, enquanto a continuidade de políticas públicas essenciais, como as voltadas para a melhoria da segurança, se enfraquece. Não é a alternância de poder em si que ameaça a democracia, mas sim a incapacidade reiterada dos governos de atender às aspirações dos cidadãos. Essa frustração acumulada pode alimentar a tentação do autoritarismo.
Esperemos que Flávio Bolsonaro, se eleito, compreenda as razões de seu apoio popular e governe de acordo. Os brasileiros que confiam nele esperam moradia, segurança e oportunidades para empreender. Uma aliança de partidos latino-americanos de direita dificilmente substituirá a obrigação de atender a essas expectativas. A medida de seu sucesso será sua capacidade de traduzir o apoio eleitoral em melhorias concretas para a vida dos brasileiros.
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