
Por: Beatrice E. Rangel - 13/01/2026
Após a morte de Michael Reagan, filho mais velho do ex-presidente Ronald Reagan e comentarista reverenciado no mundo conservador, muitos seguidores do legado dessa família, reunidos em Los Angeles, questionaram se o mundo que os Estados Unidos estão tentando construir faz parte desse legado.
A resposta simples é não. Porque Ronald Reagan sempre acreditou que a liberdade era a única força capaz de transformar a humanidade e o mundo. Foi por isso que ele concebeu uma política externa voltada para levar a liberdade onde ela não existia, como no império soviético. E concentrou seus esforços em acabar com esse regime, libertando assim toda a Europa Oriental.
O que se seguiu foi um mundo economicamente globalizado, mais fragmentado do que nunca entre aqueles que se beneficiaram da globalização e aqueles que sofreram por causa dela. Os Estados Unidos, por exemplo, foram palco da maior destruição da classe média que o mundo já viu. Em 1980, 66% da população americana era classificada como classe média. Havia 22% ricos e os 12% restantes eram pobres, concentrados nos estados do sul. Hoje, a classe média mal chega a 50%, enquanto as famílias pobres representam 30% da população e as famílias ricas, 20%. E tudo isso graças ao estouro das bolhas da internet e dos imóveis.
O impacto político da globalização levou a liderança dos EUA a acreditar que um sistema internacional baseado em regras universalmente vinculativas não atende aos seus melhores interesses. Portanto, o foco agora está na criação de um mundo definido por esferas de influência.
Esse resultado também é produto da falha da maioria dos países em cumprir as regras estabelecidas após a Segunda Guerra Mundial. A Europa, por exemplo, nunca abraçou a ideia do livre comércio, e a renomada União Europeia deixa muito a desejar em termos de integração econômica e comércio com o resto do mundo. Além disso, o financiamento da OTAN, que colocou o peso da aliança sobre os Estados Unidos, deveria ser temporário até que a Europa se recuperasse economicamente. Mas os europeus nunca levaram essa responsabilidade a sério depois que suas economias retomaram o crescimento. A América Latina tem oscilado de uma crise econômica para outra, acumulando inadimplências e dívidas, e transferindo a pressão política para o Fundo Monetário Internacional, entidade que socorreu muitas nações do hemisfério com empréstimos para cobrir déficits — empréstimos que, obviamente, devem ser pagos. Em questões comerciais, não há mercados mais protegidos e menos integrados regionalmente do que os da América Latina, com exceção do México, Chile, Colômbia e dos países da América Central que firmaram acordos de livre comércio com os Estados Unidos, graças aos quais as classes médias nesses países cresceram a taxas interessantes nos últimos trinta anos. Somente o Japão possui um excelente histórico em termos de cumprimento das normas internacionais que surgiram da Segunda Guerra Mundial.
Foi essa situação que levou Donald Trump a romper com o quadro regulatório internacional estabelecido nas conferências de Atlântica, Bretton Woods, Dumbarton Oaks e Yalta.
Assim, entramos no já conhecido mundo das esferas de influência, no qual os Estados Unidos, a Rússia e a China estabelecerão sua hegemonia na América Latina, na Europa e na Ásia, respectivamente, a partir desta década.
Esse mundo já havia sido vivenciado por nossos avós e pais, pois prevaleceu durante a Guerra Fria; a política europeia de equilíbrio de poder nos séculos XVIII e XIX e os sistemas imperiais anteriores à Primeira Guerra Mundial.
As vantagens do sistema residem na redução do risco de guerras entre as grandes potências, desde que as esferas de influência sejam claramente definidas, respeitadas por todo o mundo e que exista uma ameaça crível contra qualquer ataque. Outra virtude do sistema é que o mundo ganha previsibilidade estratégica. Ou seja, sabe-se quem controla o quê e quais alianças são proibidas. Finalmente, um mundo com esferas de influência facilita a coordenação entre as grandes potências. Os conflitos são relegados do cenário global e restritos a disputas entre blocos que a potência dominante resolve em última instância.
Resumindo, estamos abandonando o vasto universo de liberdade que inspirou Ronald Reagan a entrar no estreito vale dos internatos, de onde podemos emergir mais bem educados, mas menos livres.
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