
Por: Beatrice E. Rangel - 20/07/2026
As democracias geralmente não se deterioram da noite para o dia. Elas começam a ruir quando aqueles que detêm o poder deixam de compreender que a ética não é um obstáculo à governança, mas sim a condição indispensável para governar bem. A política pode ser a arte do possível, mas só produz resultados duradouros quando se baseia em princípios. É por isso que a máxima da congressista espanhola Cayetana Álvarez de Toledo — "O que é moral é o que é eficaz" — contém uma verdade que a história confirma repetidamente.
Os acontecimentos recentes na Espanha e na Venezuela oferecem uma ilustração eloquente.
Na Espanha, o Tribunal Nacional determinou que existem provas suficientes para abrir um inquérito criminal contra o ex-primeiro-ministro José Luis Rodríguez Zapatero por alegados crimes relacionados com tráfico de influência e enriquecimento ilícito. Caberá aos tribunais determinar a responsabilidade. Mas, seja qual for o desfecho jurídico, este episódio obriga a uma reavaliação do papel desempenhado pelo homem que, após deixar La Moncloa (a residência oficial do primeiro-ministro), se tornou um dos principais interlocutores europeus do regime venezuelano.
Durante anos, essa administração foi apresentada como um esforço de mediação e entendimento. No entanto, acabou por vincular o prestígio internacional da Espanha a um governo amplamente criticado pela comunidade democrática. Se as acusações se confirmarem, o prejuízo irá além da figura do ex-presidente: afetará também a credibilidade de uma política externa que, desde a transição democrática, fez da Espanha um interlocutor privilegiado entre a Europa e a América Latina. Uma reputação construída pelo Rei Juan Carlos I, Adolfo Suárez e Felipe González poderá ser perdida muito mais rapidamente do que foi construída.
A Venezuela oferece uma lição ainda mais dolorosa. A tragédia causada pelo duplo terremoto de 24 de junho testou não apenas a capacidade logística do Estado, mas também seu compromisso com a vida de seus cidadãos.
Embora governos e organizações internacionais tenham oferecido assistência humanitária imediata, a resposta oficial foi marcada por desorganização, falta de transparência e decisões difíceis de entender. Hospitais de campanha foram montados longe das áreas mais afetadas; alimentos e ajuda médica ficaram retidos por dias; e equipes internacionais de resgate relataram obstáculos para realizar seu trabalho. Em uma emergência dessa magnitude, cada hora perdida se traduz em vidas humanas.
Para além das responsabilidades administrativas, a tragédia revelou um problema mais profundo: quando um governo deixa de considerar o cidadão como o centro das suas ações, a ineficiência deixa de ser um acidente e torna-se uma consequência inevitável.
Espanha e Venezuela vivenciam realidades muito diferentes. No entanto, ambos os episódios evidenciam uma verdade comum: transgredir princípios éticos jamais traz vantagens duradouras. Pode oferecer benefícios imediatos, mas, em última análise, enfraquece as instituições, mina a confiança pública e reduz a capacidade do Estado de cumprir suas funções.
A Espanha corre o risco de perder parte da autoridade moral que, durante décadas, lhe permitiu desempenhar um papel singular na América Latina. A Venezuela enfrenta um desafio muito mais dramático: reconstruir um país cuja população sofreu não apenas um desastre natural, mas também uma profunda desconfiança nas instituições que não estiveram à altura da situação no momento mais crítico.
A história demonstra que as nações não prosperam unicamente pela qualidade de suas leis ou pela abundância de seus recursos. Elas prosperam quando aqueles que as governam compreendem que o poder só mantém sua legitimidade enquanto permanecer sujeito a princípios.
Porque, no fim das contas, a política mais eficaz continua sendo a mais moral.
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