
Por: Beatrice E. Rangel - 01/09/2026
Em sua Divina Comédia, Dante Alighieri nos adverte, a nós mortais, de que não podemos ascender ao Paraíso a partir de nossa condição humana sem antes atravessar os horrores e sofrimentos do Inferno, escalar a montanha do Purgatório e, finalmente, nos tornarmos dignos do Paraíso. Somente após essa jornada seremos capazes de compreender plenamente a natureza do pecado, o poder da justiça e as propriedades transformadoras da redenção.
A Europa seguiu o caminho de Dante, desencadeando duas guerras mundiais no mesmo século, cujas consequências foram entre 80 e 115 milhões de mortes e destruição de proporções extraordinárias. Hoje, a Venezuela parece compartilhar dessa desgraça sem ter vivenciado qualquer conflito armado.
Entre 2000 e 2026, aproximadamente 3,6 milhões de pessoas morreram em decorrência de doenças e epidemias que se acreditava estarem sob controle, um número equivalente a cerca de dez por cento da população. Além disso, 7,9 milhões de venezuelanos emigraram para diversas partes do hemisfério, com a Colômbia, o Equador e o Peru sofrendo o impacto mais forte desse êxodo. Desde 2003, as relações internacionais do país têm sido alvo de crescente intervenção cubana. E entre 2000 e 2026, o PIB da Venezuela caiu de aproximadamente US$ 118 bilhões para US$ 97 bilhões.
Resumindo, o século XXI na Venezuela tem sido o Inferno de Dante.
Esta semana, o governo empossado em 4 de fevereiro deste ano anunciou a conclusão de um acordo que transfere os direitos de propriedade de 65 bilhões de barris de petróleo. O acordo terá duração de um século e, em contrapartida, incluirá um aporte de investimentos na Venezuela superior a 100 bilhões de dólares.
Isso levanta uma questão inevitável: estará a Venezuela a iniciar a sua jornada pelo Purgatório para alcançar novamente o Paraíso?
A resposta dependerá, naturalmente, de um conjunto de variáveis que ainda não se materializaram na terra de Bolívar.
A primeira condição é a existência de um quadro legal capaz de garantir a qualquer investidor que seus recursos investidos serão protegidos durante o período de maturação do investimento e até que comecem a gerar dividendos. Essa condição só existe onde operam instituições sólidas, capazes de assegurar o cumprimento da lei e resolver os conflitos que inevitavelmente surgem em qualquer atividade econômica. Isso requer legitimidade de origem, independência institucional e confiança pública.
A segunda condição é a restauração da infraestrutura essencial necessária para garantir a extração, o armazenamento e o transporte de hidrocarbonetos. Sem ela, as reservas de petróleo, por mais extraordinárias que sejam, representam riqueza potencial, mas não necessariamente riqueza realizável.
Porque o petróleo pode financiar a reconstrução da Venezuela, mas não pode substituir as instituições necessárias para torná-la possível. A experiência venezuelana demonstra precisamente que a abundância de recursos naturais não garante, por si só, prosperidade, estabilidade ou desenvolvimento.
A terceira condição é talvez a mais importante: que os governados tenham a certeza de que existe igualdade perante a lei e que as oportunidades estão abertas a todos, e não reservadas exclusivamente às elites.
Uma quarta condição será a recuperação do capital humano. A Venezuela não perdeu apenas infraestrutura e capacidade produtiva; perdeu também milhões de cidadãos, incluindo uma parcela significativa do talento profissional, técnico e empreendedor necessário para reconstruir o país. Transformar a diáspora em uma força de retorno, investimento, conhecimento e conexão com o mundo será tão importante quanto atrair capital estrangeiro.
Mas há também uma variável que nenhum acordo pode acelerar por decreto: o tempo. Entre a promessa de investimento, a reabilitação da indústria, o aumento da produção e a transformação dessa riqueza em bem-estar, anos se passarão. O purgatório venezuelano, se de fato começou, não será breve.
Essas condições ainda estão longe de serem atendidas. E enquanto não forem, nem o governo guardião nem a Venezuela conseguirão subir a montanha do Purgatório para alcançar os portões daquele Paraíso que, em nossos dias, tem dois nomes inseparáveis: liberdade e desenvolvimento.
Porque você pode sair do Inferno; o que não existe é um atalho para o Paraíso.
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