
Por: Beatrice E. Rangel - 05/01/2026
Em relação à invasão do Panamá, Octavio Paz escreveu que, quando a soberania de um povo é usurpada por um grupo violento, é dever da comunidade internacional intervir para restaurar o direito à autodeterminação. No Panamá, assim como na Venezuela, o povo elegeu, por ampla maioria, um líder da oposição, o General Antonio Noriega, como presidente. Noriega não só se recusou a reconhecer os resultados das eleições, como também desencadeou uma onda de repressão contra qualquer indivíduo ou organização que se opusesse a ele. Diversos países, incluindo a Venezuela, legitimamente preocupados com o impacto nas relações hemisféricas de ter um indivíduo ligado ao narcotráfico na presidência, tentaram mobilizar uma frente regional para exercer pressão suficiente sobre Noriega a fim de forçá-lo a renunciar ao poder. Essa frente regional jamais se materializou, e o restante da história é bem conhecido.
No caso da Venezuela, observamos novamente a mesma falta de compreensão do problema que a presença de um regime composto por narcotraficantes representa para toda a região. O México desempoeirou a Doutrina Estrada. O Brasil se escondeu atrás do princípio da não intervenção. A Argentina foi cúmplice, e o restante dos países fez vista grossa.
O mesmo aconteceu quando se tentou aprovar uma resolução da OEA para aplicar a Carta Democrática à Venezuela, e quando a acusação foi apresentada ao Tribunal Penal Internacional, onde Argentina, Colômbia e Chile se retiraram do processo instaurado em 2018, juntamente com Canadá, Paraguai e Peru, assim que seus governos mudaram. As consequências não poderiam ter sido piores: crimes contra a humanidade continuam a ser perpetrados na Venezuela sete anos depois, com um saldo de 2.000 presos políticos, 800 pessoas submetidas a tortura, 100 mortes sob custódia das autoridades e 50 pessoas desaparecidas.
Essa falta de visão regional e de compromisso com a democracia é o que levou a região a perder influência no cenário internacional. Porque, enquanto a Europa defende claramente os princípios democráticos e a coalizão regional, na América Latina cada nação está convencida de que pode controlar o panorama geopolítico sozinha. E, nesse caminho, está alcançando o indesejável objetivo da irrelevância.
Entretanto, os Estados Unidos deixaram bem claro no episódio da Venezuela que não estão dispostos a tolerar o estabelecimento de narcoestados no hemisfério e, portanto, procederam à retirada de Nicolás Maduro da Venezuela para forçá-lo a comparecer perante tribunais de justiça que só poderiam ser americanos, porque os tribunais ao sul do Rio Grande são bastante complacentes com o poder.
Assim começa o corolário Trump à Doutrina Monroe, que tem mais elementos de Teddy Roosevelt do que de James Monroe. E para o bem do hemisfério, a operação de limpeza contra o crime organizado transnacional, que as nações da América Latina adiaram em detrimento de nossas democracias, está agora em andamento. E assim ele prosseguiu para
Do ponto de vista do povo venezuelano, a intervenção dos EUA foi uma tábua de salvação. Ela pôs fim a um regime sinistro que violou massivamente os direitos humanos, mergulhou o país na miséria e dividiu famílias, forçando 25% da população a emigrar. Em contraste com aquele regime, a operação para extrair Nicolás Maduro foi planejada com a proteção da população civil em mente. Claramente, como bem apontou o Professor Paz, a intervenção dos EUA foi essencial para restaurar a soberania que havia sido usurpada do povo venezuelano.
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