Restaurar a liberdade e acabar com o crime organizado na política não é uma questão de medidas tímidas.

Carlos Sánchez Berzaín

Por: Carlos Sánchez Berzaín - 01/06/2026


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Nas duas últimas décadas do século XX, a política latino-americana foi infiltrada por narcogovernos ligados ao narcotráfico, financiados por ele ou influenciados por ele. Em seguida, o socialismo do século XXI estabeleceu narcoestados, ou seja, o controle do poder político pelo narcotráfico, com as ditaduras de Cuba, Venezuela, Nicarágua, Bolívia, Equador e em estados ou territórios do México, Argentina e Colômbia. Diante dessa realidade, os líderes e governos das Américas enfrentam o desafio de erradicar o crime organizado da política, uma missão formidável que não pode ser cumprida com medidas tímidas.

A expressão coloquial “meias medidas” é usada para descrever ações ou atitudes ambíguas, pouco claras, indecisas ou hesitantes. Denota covardia, cautela excessiva ou falta de clareza ao tomar uma decisão, expressar uma opinião ou realizar uma tarefa. A história nos conta que essa expressão se originou nos tempos da escrita à mão com pena e tinta e era equivalente a diluir a tinta a ponto de a escrita ficar quase ilegível, permitindo ao escritor registrar algo sem se comprometer totalmente ou ocultar a mensagem.

Todo governo almeja manter altos níveis de popularidade, aceitação e apoio público. Para alcançar esse objetivo, formula propostas que visam a vitória nas eleições, busca atender às expectativas e necessidades dos cidadãos e constrói equipes que influenciam a opinião pública. Contudo, na hora de governar, surgem desafios essenciais que nem sempre são populares.

Quando um governo implementa mudanças, os afetados reagem rápida e violentamente, enquanto aqueles que se beneficiariam geralmente se mostram apáticos ou lentos em expressar apoio. Mudanças — essenciais em sociedades em crise — costumam ser traumáticas, impopulares e não produzem resultados rápidos. A revogação de leis infames, a liberalização da economia, o retorno ao Estado de Direito, o combate à corrupção, a eliminação da impunidade por meio da punição e prisão dos acusados, a restauração das instituições e a reintegração da liberdade afetam o crime organizado, que detinha o poder, aqueles que acumularam fortunas inexplicáveis ​​e aqueles que continuam a explorar atividades criminosas.

Dadas as crises econômicas, sociais, políticas e institucionais que os regimes socialistas do século XXI criaram e deixaram para trás em países como Venezuela, Equador, Bolívia, Cuba e Nicarágua, as medidas necessárias para o retorno à democracia e à liberdade econômica podem ser muito difíceis, mas são essenciais. Para enfrentar esse desafio existencial e promover mudanças, presidentes e governos têm a opção do gradualismo ou da terapia de choque.

O gradualismo é a política que defende que mudanças incrementais e de pequena escala, com o objetivo de preservar a ordem e evitar tensões desnecessárias, são a forma mais adequada de alcançar mudanças políticas, econômicas e sociais profundas, estruturais ou sistêmicas. Geralmente, esse processo leva muito tempo. As políticas de choque ou impacto, por outro lado, consistem em medidas radicais implementadas rapidamente para reestruturar a economia, as instituições ou a sociedade, superando a resistência por meio de uma implementação rápida e inesperada.

A história demonstra que reformas estruturais econômicas, políticas e sociais têm empregado ambos os métodos, com fracassos recorrentes para o gradualismo e sucessos notáveis ​​para planos de impacto. Entre outros, governos como o de Macri na Argentina, o de Añez na Bolívia e o de Lasso no Equador demonstram os resultados do gradualismo, enquanto os de Paz Estenssoro na Bolívia, Moreno no Equador e Bukele em El Salvador exemplificam a implementação de políticas de impacto.

A gravidade da situação do país é tal que – tal como a de uma pessoa doente – exige ou permite gradualismo ou um impacto significativo na recuperação, que consiste basicamente na restauração da democracia com os seus cinco elementos essenciais: “o respeito pelos direitos humanos e liberdades fundamentais; o Estado de direito; eleições periódicas, livres e justas, baseadas no sufrágio universal e secreto, como expressão da soberania do povo; um sistema pluralista de partidos e organizações políticas; e a separação e independência dos poderes públicos.”

O crime organizado transnacional, operado pelo socialismo do século XXI, suplantou o constitucionalismo, as leis, as instituições, a economia, a justiça, a conduta social, o sistema educacional, a saúde, a previdência social, as forças armadas, a polícia e os sistemas de segurança, a identificação pessoal, a propriedade privada e todo o sistema democrático em Cuba, Venezuela, Bolívia, Nicarágua e Equador. A restauração gradual dessa barbárie é impossível porque o crime organizado mantém operações disfarçadas de expressões políticas, a capacidade de financiar conspirações e desinformação e controlar a violência ilícita; na realidade, ele mantém o poder.

Tomar o governo, mas não o poder (que permanece nas mãos do crime), não restaurará a liberdade e a economia para o povo que sofre a desgraça do socialismo do século XXI.

*Advogado e Cientista Político. Diretor do Instituto Interamericano para a Democracia.


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