
Por: Hugo Marcelo Balderrama - 02/03/2026
Colunista convidado.Nazi-Comunismo é o livro mais recente de Axel Kaiser. Sua pesquisa desmantela um dos maiores mitos da ciência política: a ideia de que nazistas e comunistas são opostos ideológicos. Kaiser, com documentação meticulosa, demonstra que eles compartilham, no mínimo, suas posições antropológicas, gnósticas, econômicas e anticristãs. Vamos analisá-las:
Nazistas e comunistas aderem ao polilogismo, a crença de que diferentes grupos de pessoas raciocinam de maneiras fundamentalmente diferentes. Marx afirmava que o proletariado possuía uma forma pura de pensamento e a consciência mais elevada. Em contraste, a burguesia tinha um raciocínio turvo, produto de seus obscuros interesses de classe. Esse esquema infundado também foi usado pelos nazistas em uma espécie de polilogismo racista. Assim, Hitler, em meio à sua confusão sobre raça e religião, pôde afirmar que a raça judaica é, acima de tudo, uma raça intelectual.
O grande Eric Voegelin descreveu ambas as ideologias como versões atualizadas do gnosticismo, pois ambas sustentavam que certos grupos de pessoas possuíam os mecanismos mentais necessários para alcançar as verdades supremas. Assim, nazistas e comunistas acreditavam que a humanidade, guiada pelos "escolhidos", poderia construir o paraíso na Terra — uma frase repetida diversas vezes por Hitler. Portanto, o valor de uma pessoa não é inerente, mas sim determinado por sua capacidade de se sacrificar em prol de ideais superiores: classe para os comunistas e raça para os nazistas.
É verdade também que nazistas e comunistas desprezavam o capitalismo. De fato, Joseph Goebbels, ministro da propaganda do regime nazista, em um artigo intitulado "Hitler ou Stalin", dirigido a militantes comunistas na Alemanha, afirmou que nazistas e comunistas concordavam em pôr fim ao modelo burguês baseado na busca do lucro, que consideravam uma infecção anglo-saxônica alheia ao nobre espírito do povo alemão. Mas, apesar desses importantes pontos de concordância, Stalin foi tratado como um traidor, não por suas ideias, mas por ter aceitado empréstimos de grandes financistas de Wall Street. Por essa razão, Goebbels afirmava que Hitler era o único capaz de construir o "verdadeiro socialismo".
Por outro lado, a política econômica nazista baseava-se na confiscação de empresas privadas, na intervenção no capital financeiro, na manipulação monetária que levava à inflação e no controle de preços. Contudo, à medida que os preços continuavam a subir, os nazistas contavam com fanáticos do regime e com as forças da lei, que não hesitavam em reprimir violentamente os especuladores. Outra semelhança reside no fato de que a ideologia, frequentemente imposta pela violência, sobrepunha-se às leis econômicas, de forma semelhante ao que ocorreu na Bolívia durante a era de Evo Morales ou na Venezuela sob o chavismo.
O ódio ao cristianismo é outro ponto de convergência entre nazistas e comunistas. De fato, Marx descreveu a religião como um ópio, pois sufocava todos os impulsos revolucionários. Por sua vez, Alfred Rosenberg, um ideólogo nazista, considerava o conceito de amor cristão — o de oferecer a outra face e sentir compaixão pelo próximo — como a causa da decadência de Roma. O misticismo de Rosenberg influenciou profundamente as narrativas indigenistas da esquerda latino-americana, por exemplo, a ideia de um belo mundo pré-cristão.
Em Romanos 7:19, o apóstolo Paulo diz: “Porque não faço o bem que quero, mas o mal que não quero, esse faço”. Para o cristianismo, a humanidade é incapaz de fazer o bem, visto que sua natureza decaída a conduz pelo caminho do mal. Logicamente, qualquer tentativa de construir o paraíso na Terra é sempre vista com ceticismo. O fato de os cristãos desconfiarem do poder e amarem o próximo, na prática, poupou a humanidade de tragédias, já que, como Santo Agostinho de Hipona tão bem explicou, o triunfo do cristianismo sobre o paganismo pôs fim ao derramamento de sangue entre os povos vikings. Algo semelhante aconteceu com a chegada da Espanha ao que hoje são as Américas.
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