
Por: Luis Fleischman - 11/01/2026
Na manhã de 3 de janeiro, forças de operações especiais dos EUA prenderam o líder venezuelano Nicolás Maduro em uma operação altamente coordenada que imediatamente atraiu a atenção global. As autoridades americanas afirmam que Maduro comandava uma vasta rede de narcotráfico que prejudicava os interesses dos EUA. Alguns críticos, citados pelo The New York Times, questionaram se o fluxo de drogas de outras regiões representa uma ameaça mais imediata, levantando, assim, questões mais amplas sobre a justificativa da operação.
As declarações públicas do presidente Donald Trump adicionaram complexidade ao debate. Seus comentários sugeriram que os interesses econômicos dos EUA — particularmente no setor energético da Venezuela — podem ter influenciado os cálculos de Washington. Ao mesmo tempo, Trump expressou dúvidas sobre a capacidade da líder da oposição, María Corina Machado, de governar, indicando uma disposição temporária de trabalhar com a vice-presidente Delcy Rodríguez como autoridade interina.
Essas discussões, no entanto, correm o risco de negligenciar um aspecto fundamental: a crise venezuelana não pode ser compreendida apenas pela ótica do narcotráfico ou da política energética. Sob Hugo Chávez e, posteriormente, sob Maduro, o Estado venezuelano consolidou-se como um projeto político com ambições regionais que se estendiam muito além de suas fronteiras.
Durante os anos de Chávez, a Venezuela apoiou ativamente movimentos e governos ideologicamente alinhados na América Latina, incluindo os liderados por Rafael Correa no Equador, Evo Morales na Bolívia e Daniel Ortega na Nicarágua. Juntamente com Cuba, esses governos formaram a Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América (ALBA), um bloco que se definiu explicitamente em oposição à influência dos EUA na região. Simultaneamente, a Venezuela buscou expandir sua influência por meios diplomáticos, financeiros e políticos, por vezes tensionando as instituições democráticas dos países vizinhos.
Simultaneamente, o governo Chávez cultivou relações com atores armados não estatais, incluindo grupos guerrilheiros colombianos e outras organizações militantes. De Caracas, essas relações foram apresentadas como uma estratégia de dissuasão contra uma potencial intervenção estrangeira, embora, na prática, tenham contribuído para uma maior instabilidade regional. Por um tempo, a riqueza petrolífera venezuelana sustentou essa política externa. Acordos energéticos subsidiados garantiram apoio político no Caribe e na América Central, enquanto políticas frouxas de passaportes e vistos concedidas a iranianos e outros indivíduos duvidosos suscitaram preocupações entre os serviços de segurança da região.
Com a queda das receitas do petróleo, o governo Maduro recorreu cada vez mais a atividades ilícitas — como o tráfico de drogas, a mineração ilegal e o contrabando — para se sustentar. O chamado Cartel dos Sóis, ligado por diversas investigações a elementos do regime venezuelano, opera como uma rede descentralizada de células com conexões militares envolvidas nessas atividades. Essa rede criminosa alimenta a corrupção e fortalece redes transnacionais de violência que incluem gangues, tráfico de armas e outras formas de crime organizado. O resultado é a deterioração da estabilidade regional e a criação de ambientes permissivos nos quais organizações terroristas, como as FARC, o ELN e o Hezbollah, podem operar e prosperar.
Os laços cada vez mais estreitos do regime de Maduro com o Irã também suscitaram preocupações, particularmente à luz de relatos que indicam a expansão de redes ligadas ao Hezbollah na América Latina e no Caribe. Embora a extensão exata dessa presença ainda seja objeto de debate, a percepção de uma crescente influência extrarregional intensificou as preocupações de formuladores de políticas tanto nos Estados Unidos quanto na região.
Dessa perspectiva, a ação dos Estados Unidos contra Maduro pode ser interpretada como parte de um esforço mais amplo para conter os riscos à segurança regional. Ao mesmo tempo, evidencia as limitações dos mecanismos jurídicos internacionais. A pressão diplomática e os fóruns multilaterais têm falhado repetidamente em gerar mudanças significativas na Venezuela, em parte porque potências como a Rússia e a China continuam a proteger Caracas em organizações internacionais. Além disso, muitos países do chamado Sul Global tendem a apoiar governos que desafiam os Estados Unidos.
No entanto, a saída de Maduro é apenas o primeiro passo, e provavelmente o mais fácil. Figuras-chave na estrutura de poder venezuelana permanecem em seus cargos, incluindo Diosdado Cabello, figura central no sistema de segurança, e o Ministro da Defesa, Vladimir Padrino López, que mantém a lealdade de amplos setores das Forças Armadas. Embora Delcy Rodríguez tenha expressado disposição para cooperar com os Estados Unidos, tensões internas já são evidentes, com os linha-dura acusando facções mais moderadas de traição.
Alguns argumentam que preservar partes do regime é necessário para manter a ordem e evitar o colapso institucional, lembrando o caos que se seguiu à desbaathificação do Iraque após 2003. Essa preocupação merece consideração séria. No entanto, a continuidade institucional não exige impunidade. É possível manter a capacidade administrativa do Estado e dos serviços públicos, removendo aqueles mais intimamente ligados à repressão, à corrupção e ao crime organizado.
O próprio presidente Trump afirmou recentemente que “os americanos estão no comando” do que está acontecendo na Venezuela. Na realidade, não estamos. A estrutura da ditadura continua operando, mesmo sem Maduro.
Um exemplo claro é a recente publicação de um decreto que declara Estado de Emergência Externa, o qual estabelece um quadro jurídico excepcional que concentra amplos poderes no Poder Executivo, num contexto de confronto direto com os Estados Unidos. Entre as suas principais disposições, encontra-se uma ordem para que as forças de segurança atuem contra aqueles que o regime chavista considera terem apoiado a ação militar dos EUA. Já ocorreram prisões de jornalistas e alegados colaboradores, sublinhando os riscos de se permitir que as estruturas de poder consolidadas permaneçam sem controlo.
Em última análise, o sucesso da operação dos EUA não será medido pela sua execução tática, mas sim pelo que acontecer depois. Uma transição estável, inclusiva e responsável — capaz de evitar tanto o colapso institucional quanto a mera continuidade autoritária — determinará se a Venezuela poderá avançar rumo à recuperação ou permanecerá presa à crise.
Uma mudança significativa, no entanto, já é visível: a esperança e o otimismo retornaram ao povo venezuelano. Olhando para o futuro, o engajamento cívico contínuo será essencial, pois uma transição democrática não pode depender exclusivamente de intervenção externa.
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