O Modelo Bukele e as dificuldades da sua implementação.

Beatrice E. Rangel

Por: Beatrice E. Rangel - 12/08/2026


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Os latino-americanos têm uma longa tradição de copiar modelos. Copiamos modas, tendências e, claro, modelos de políticas públicas, negócios, trabalho e educação. A lógica parece simples: se um determinado modelo produziu resultados positivos em outros lugares — Singapura, Austrália, Suíça ou até mesmo no Himalaia — por que não os produziria aqui também?

O problema é que essa linha de raciocínio frequentemente ignora o ponto essencial: nenhum modelo funciona isoladamente. Geografia, cultura, instituições e a disponibilidade de recursos naturais influenciam profundamente seus resultados. O que funciona em um país pode fracassar espetacularmente em outro.

A América Latina está bem ciente das consequências desse fascínio por receitas importadas.

A primeira grande onda de cópias institucionais ocorreu após os movimentos de independência da Espanha, quando se assumiu que o modelo democrático federal adotado pelos Estados Unidos poderia funcionar igualmente bem ao sul do Rio Grande. Isso levou a uma profusão de constituições que consagraram o federalismo nas novas nações que emergiram do Império Espanhol.

Mas as constituições por si só não criaram democracias. Nem impediram as guerras civis que marcaram grande parte do período pós-independência.

Hoje podemos estar enfrentando uma nova versão do mesmo fenômeno.

No século XXI, os Estados Unidos decidiram desempoeirar a Doutrina Monroe, incorporando o chamado Corolário Trump. De uma perspectiva geopolítica, Washington escolheu o Hemisfério Ocidental como sua esfera de influência estratégica e colocou o crime organizado no centro de sua agenda regional. A premissa parece ser que os países que perturbam a paz política ou o progresso econômico podem se tornar alvo de ações mais diretas dos EUA.

Essa nova direção pegou muitos líderes latino-americanos de surpresa. Até então, a política externa dos EUA em relação à região havia se concentrado principalmente em apoiar os países latino-americanos na resolução de problemas de educação, infraestrutura e saúde.

Os novos governos que chegaram ao poder como expressão de rejeição às políticas de esquerda se viram, portanto, diante de uma nova prioridade: o combate ao crime organizado. E, na busca por um modelo que apresentasse resultados, encontraram um que parecia difícil de ignorar: o de Nayib Bukele em El Salvador.

Da Colômbia ao Chile, passando pelo Peru, começou a difundir-se a ideia de que o modelo salvadorenho poderia ser a resposta latino-americana ao avanço do crime organizado.

Mas é aqui que vale a pena fazer uma pausa.

A corrida para importar o modelo Bukele pode acabar criando problemas ainda maiores do que aqueles que pretende resolver. Isso porque o modelo não se resume a implementar políticas anticrime mais eficazes. Seu sucesso depende de condições políticas e institucionais específicas.

Dentre elas, três se destacam: um Poder Executivo muito mais forte que os demais poderes; o enfraquecimento ou silenciamento da mídia e dos órgãos responsáveis ​​pela fiscalização dos direitos humanos; e acordos com a liderança do crime organizado.

O problema é que cada uma dessas condições corrói gradualmente o tecido democrático e, com ele, as liberdades que a democracia busca proteger.

Numa região historicamente caracterizada por instituições frágeis, a adoção prolongada de um modelo desta natureza poderá acabar por produzir um resultado paradoxal: usar o combate ao crime para enfraquecer precisamente as instituições que deveriam garantir a liberdade e o Estado de direito.

E numa região que, após quinhentos anos, ainda não conseguiu consolidar instituições democráticas firmes, esse resultado seria particularmente triste.

A história também nos oferece um precedente perturbadoramente semelhante.

Em meados do século XX, a América Latina adotou mais uma vez uma receita que parecia oferecer um caminho rápido para o desenvolvimento: a industrialização por substituição de importações. Essa tese, associada ao trabalho de Raúl Prebisch, então diretor da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL) das Nações Unidas, baseava-se em uma premissa compreensível: proteger a produção nacional da concorrência estrangeira permitiria a criação de indústrias locais e aceleraria o desenvolvimento.

A receita consistia em erguer uma verdadeira barreira tarifária para restringir as importações e estimular a produção nacional.

Funcionou, até certo ponto, em grandes economias como Austrália, Nova Zelândia, México e Brasil. Mas em muitas das economias menores da região, teve um efeito perverso: criou setores empresariais dependentes da proteção tarifária, incapazes de competir internacionalmente e com fortes incentivos para preservar o sistema que os protegia.

O modelo também aumentou os orçamentos da classe média, reduziu sua capacidade de crescimento e contribuiu para a formação de grupos de interesse suficientemente poderosos para capturar os aparelhos estatais em defesa de seus próprios interesses.

O resultado foi uma combinação já conhecida: maior marginalização, incapacidade de conquistar mercados externos e escassez de inovação endógena e desenvolvimento tecnológico.

A lição deveria ser óbvia.

A América Latina não precisa importar modelos completos. Ela precisa aprender a distinguir entre o que pode ser adaptado e o que, ao ser transferido mecanicamente de um país para outro, pode acabar destruindo as próprias condições que busca melhorar.

O desafio representado pelo crime organizado é real e urgente. A resposta, contudo, não pode ser uma escolha entre segurança e democracia. O verdadeiro desafio reside na construção de instituições capazes de garantir ambas.

Porque se para salvar a democracia acabarmos sacrificando a liberdade, teremos vencido uma batalha contra o crime apenas para perder a guerra pela democracia.


As opiniões aqui publicadas são de inteira responsabilidade de seus autores.