O gênio escapou da lâmpada?

Beatrice E. Rangel

Por: Beatrice E. Rangel - 15/09/2026


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Setembro promete ser um mês de surpresas. Para complicar ainda mais a escolha do próximo Secretário-Geral da ONU, surgiram os planos da Irlanda do Norte, Escócia e País de Gales para conquistar sua independência do Reino Unido. E antes mesmo de nos recuperarmos dessa notícia, Dario Amodei, presidente da Anthropic, uma das principais empresas no desenvolvimento de inteligência artificial, publicou um artigo no qual pede que a indústria diminua o ritmo de avanço dessa tecnologia.

Segundo Amodei, como muitas tecnologias anteriores, a inteligência artificial acarreta riscos. Mas, precisamente por ser uma tecnologia tão poderosa, esses riscos são particularmente graves. Entre eles, ele menciona a possibilidade de perda de controle dos sistemas de IA, seu uso para ataques cibernéticos e bioterrorismo, e sua capacidade de causar graves perturbações econômicas. Ele também alerta que a competição desenfreada para oferecer cada vez mais serviços de inteligência artificial ao menor preço possível pode agravar esses perigos.

Curiosamente, em 2018, a revista The Atlantic já havia publicado um ensaio de Henry Kissinger intitulado "O Fim do Iluminismo", no qual ele alertava sobre a capacidade potencialmente destrutiva da inteligência artificial e até a comparava, devido às suas implicações, às armas nucleares.

Para Kissinger, a humanidade não estava preparada, nem filosófica nem intelectualmente, para lidar com a inteligência artificial. Sua preocupação ia além da própria tecnologia: os complexos sistemas de tomada de decisão humana não podem ser reduzidos simplesmente a dados. A IA, alertava ele, desenvolve-se impulsionada por sua própria lógica e pode produzir conclusões que os humanos são incapazes de explicar ou reconstruir completamente, desafiando, assim, as formas tradicionais de cognição e até mesmo nossos conceitos históricos de realidade.

Os alertas de Henry Kissinger, também apoiados por Eric Schmidt, ex-presidente do Google, não foram objeto de um debate público proporcional à magnitude do desafio, nem parecem ter recebido a devida atenção dos líderes mundiais.

A razão talvez seja simples: quase todos eles estão presos num turbilhão do presente que os impede de desenvolver uma visão abrangente e voltada para o futuro.

Os governos enfrentam diariamente economias que perderam dinamismo e não conseguem gerar empregos suficientes para garantir uma vida estável aos jovens que ingressam no mercado de trabalho. O crime organizado transnacional infiltrou-se em diversos sistemas de proteção ao cidadão, enquanto o cibercrime prolifera a um ritmo que as autoridades mal conseguem conter. O ensino superior, que durante décadas serviu de ponte entre a pobreza e a classe média, está criando nos Estados Unidos uma geração de jovens profissionais sobrecarregados por dívidas estudantis que os salários do início do século XXI dificilmente conseguem pagar.

Todas essas pressões obrigam os governos a se concentrarem em assuntos do dia a dia. Enquanto isso, nos laboratórios de tecnologia, a inovação continua a todo vapor.

Assim, pouca atenção tem sido dada à construção dos canais necessários para direcionar a extraordinária energia criativa da inteligência artificial para o enriquecimento das atividades que compõem a rede de serviços na sociedade moderna; ao estabelecimento de novos paradigmas educacionais capazes de preparar as futuras gerações para viver e trabalhar com ela; ou, como argumentou Kissinger a partir de uma perspectiva geopolítica, ao desenvolvimento de mecanismos de dissuasão capazes de impedir que essa extraordinária capacidade criativa se torne também uma capacidade de destruição.

Para complicar ainda mais as coisas, a inteligência artificial tornou-se a ponta de lança da competição econômica e estratégica entre as duas grandes potências que disputam a liderança global: China e Estados Unidos.

A China tem feito progressos na integração da inteligência artificial em seus sistemas de produção, sistemas de saúde e, ainda em estágios iniciais, em suas redes educacionais. Nos Estados Unidos, no entanto, o debate continua sobre o que fazer com ela, como regulamentá-la e até que ponto permitir seu avanço sem restrições.

E se a convicção predominante em Washington é que qualquer regulamentação significativa pode se traduzir em perda de terreno para a China, é difícil imaginar que, em meio a essa corrida, possa surgir uma reflexão pública suficientemente profunda sobre como canalizar uma das criações mais extraordinárias da humanidade para aumentar o bem-estar, fortalecer as sociedades e promover o entendimento internacional.

Esse é, precisamente, o perigo.

Ainda não sabemos se o gênio escapou da lâmpada para sempre. Mas sabemos que começamos a correr atrás dele sem antes decidir para onde queremos que ele nos leve.

E se um acidente causado por uma inteligência artificial descontrolada algum dia ocorrer, poderemos descobrir tarde demais que sua capacidade destrutiva poderia superar a de Chernobyl. A diferença é que Chernobyl foi um acidente em uma instalação específica. A inteligência artificial, por outro lado, não conhece limites.


As opiniões aqui publicadas são de inteira responsabilidade de seus autores.