O bom nativo, outro parasita mental.

Hugo Marcelo Balderrama

Por: Hugo Marcelo Balderrama - 13/04/2026

Colunista convidado.
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Por volta de 1500, a mesma época em que Espanha, Inglaterra, Portugal e outras nações europeias exploravam as Américas, muitos ainda acreditavam que o Jardim do Éden existia em algum lugar do mundo. Obviamente, a novidade das Américas levou à transferência desse mito para este canto do planeta.

Michel de Montaigne, por exemplo, afirmava que os nativos americanos eram seres nobres, incapazes de malícia. Segundo ele, a inveja e a ganância não existiam nesse "paraíso terrestre". Em contraste, os europeus já haviam sido corrompidos pelos pecados da ambição e do poder. Jean-Jacques Rousseau, por sua vez, vinculou o mito do bom selvagem à sua condenação da propriedade privada e das atividades comerciais — as mesmas narrativas agora utilizadas pelos defensores do movimento Wok.

Cansado de toda essa irracionalidade, em 1853, Charles Dickens escreveu *O Bom Selvagem*, uma crítica mordaz e sarcástica à romantização que os intelectuais europeus sentiam pelos povos indígenas das Américas. Dickens apontou desde o início o que, até hoje, a maior parte da elite intelectual e social ocidental se recusa a reconhecer: que não havia nada de inocente nos povos nativos das Américas.

Em contraste com o mito do bom selvagem, Christina Snyder, em seu livro: 𝑆𝑙𝑎𝑣𝑒𝑟𝑦 𝑖𝑛 𝐼𝑛𝑑𝑖𝑎𝑛 𝐶𝑜𝑢𝑛𝑡𝑟𝑦: 𝑇ℎ𝑒 𝐶ℎ𝑎𝑛𝑔𝑖𝑛𝑔 𝐹𝑎𝑐𝑒 𝑜𝑓 𝐶𝑎𝑝𝑡𝑖𝑣𝑖𝑡𝑦 𝑖𝑛 Earl America, explica que as tribos norte-americanas praticavam a escravidão muitos anos antes. a chegada dos europeus. De fato, Powhatan, pai de Pocahontas, ajudou os ingleses a subjugar outras tribos, especialmente aquelas que eram suas inimigas.

Da mesma forma, pesquisas históricas demonstraram que Hernán Cortés conseguiu subjugar os astecas porque contava com o apoio das tribos que sofriam com os abusos e crueldades de Moctezuma. Não se tratava de um exército de 400 espanhóis, mas de uma força militar composta por milhares de pessoas em busca de liberdade.

Embora os panegiristas do indigenismo negassem os sacrifícios humanos ordenados por Moctezuma, a descoberta da torre de crânios na Cidade do México, muitos deles de crianças, é uma prova irrefutável das crueldades a que milhares de seres humanos foram submetidos.

No sul do continente, os araucanos praticavam a poligamia. As esposas de um homem eram praticamente sua propriedade, como animais de fazenda. O incesto era comum, com todas as consequências que isso acarreta, como doenças congênitas.

Nas áreas dominadas pelos Incas, praticava-se o Capacocha, um sacrifício infantil oferecido aos deuses em nome da abundância. As crianças eram reunidas em diferentes partes do império, inclusive na floresta amazônica da atual Bolívia, para serem sacrificadas no altiplano andino. Em muitos casos, os pais entregavam seus filhos como forma de pagar os tributos exorbitantes impostos pelos governantes sediados em Cusco.

Todos os exemplos acima são apenas alguns fatos que desmascaram as ficções do indigenismo. De qualquer forma, recomendo dois livros: "Povos Imaginários", de Cristian Rodrigo Iturralde, e "Parasitas Mentais", de Axel Kaiser. Ambas as obras ajudarão a aprofundar a compreensão e, principalmente, a dissipar os mitos progressistas sobre os povos indígenas das Américas.

Se há uma conclusão a ser tirada desses casos, é que, como afirmou Dickens, a colonização europeia foi a melhor coisa que poderia ter acontecido às populações indígenas das Américas. De fato, a Rainha Isabel I de Castela fez diversos esforços para proteger os povos indígenas. Da mesma forma, Frei Antonio de Montesinos iniciou o movimento pelos direitos humanos dos indígenas já em 1511, o que levou a vários decretos reais, como as Leis de Burgos em 1512 e as Leis de Valladolid em 1513. Pela primeira vez, os povos indígenas das Américas entraram em contato com a civilização e com o respeito pela vida.

Então, por que o mito do bom selvagem ainda persiste?

Porque serve para gerar conflitos e desestabilizar sistemas democráticos. Não se trata de defender ninguém, mas de mergulhar países em derramamento de sangue para tomar o poder; um exemplo claro disso é a minha Bolívia natal.


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