Enquanto o Ocidente luta entre si, a Rússia avança.

Beatrice E. Rangel

Por: Beatrice E. Rangel - 14/07/2026


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Enquanto grande parte do Ocidente se concentra em suas próprias divisões políticas e econômicas, a Rússia continua a executar uma estratégia de longo prazo destinada a redefinir o equilíbrio de poder na Europa e no Ártico. Além dos ataques brutais à infraestrutura civil ucraniana, o Kremlin persegue objetivos geopolíticos que transcendem o campo de batalha e buscam desestabilizar a arquitetura de segurança ocidental.

Um desses objetivos é consolidar a posição da Rússia como a principal potência militar no Ártico. A Península de Kola constitui o núcleo de suas capacidades estratégicas: uma parcela significativa de seu arsenal nuclear e os sistemas que protegem sua frota de submarinos estão concentrados ali. Simultaneamente, Moscou reabriu antigas bases soviéticas e fortaleceu sua presença militar na região. Essa expansão serve tanto para dissuadir a presença de outras potências quanto para compensar as novas realidades estratégicas decorrentes da adesão da Finlândia e da Suécia à OTAN, que reduziram a liberdade de manobra que a Rússia desfrutou por décadas no norte da Europa.

O segundo objetivo é controlar a Rota Marítima do Norte. O derretimento progressivo do gelo ártico torna essa hidrovia uma das rotas comerciais mais importantes do século XXI. A Rússia já exige autorização prévia para o trânsito de certas embarcações e aspira a exercer uma capacidade de influência sobre esse corredor comparável, embora não idêntica, à que o Irã projeta sobre o Estreito de Ormuz.

O terceiro pilar da estratégia russa é econômico. O Ártico detém aproximadamente 80% das reservas de gás natural da Rússia e quase 60% de seus recursos petrolíferos, além de importantes depósitos de minerais críticos e vastas reservas de água doce. Projetos como a usina de gás natural liquefeito na Península de Yamal são cruciais para a futura sustentabilidade fiscal do país, embora seu desenvolvimento tenha sido prejudicado pelas sanções ocidentais.

A guerra contra a Ucrânia deve ser compreendida dentro dessa visão estratégica mais ampla. Além de suas dimensões territoriais e militares, o conflito testou a coesão política do Ocidente. A violação do Memorando de Budapeste de 1994 — por meio do qual a Ucrânia renunciou ao seu arsenal nuclear em troca de garantias de segurança oferecidas pela Rússia, pelos Estados Unidos e pelo Reino Unido — minou a credibilidade dos compromissos internacionais e desencadeou um intenso debate sobre a capacidade das democracias ocidentais de responder de forma unificada à agressão.

A isso se somam outros instrumentos característicos da chamada guerra híbrida: coerção energética, campanhas de desinformação, ciberataques, operações secretas e o uso político de estrangeiros detidos como mecanismo de pressão diplomática. Em conjunto, essas ferramentas buscam corroer a coesão interna das democracias ocidentais sem necessariamente recorrer ao confronto militar direto.

Entretanto, o Ocidente continua a demonstrar publicamente diferenças estratégicas, divergências políticas e, frequentemente, respostas descoordenadas aos desafios impostos por Moscou. A força da Rússia reside não apenas em suas capacidades militares, mas também na clareza e continuidade de seus objetivos estratégicos. O verdadeiro desafio para as democracias ocidentais é recuperar uma visão compartilhada de longo prazo que lhes permita responder com a mesma coerência com que a Rússia vem executando sua estratégia.


As opiniões aqui publicadas são de inteira responsabilidade de seus autores.