Ditadura e totalitarismo

Pedro Corzo

Por: Pedro Corzo - 08/09/2026

Colunista convidado.
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Há alguns dias, em um encontro entre amigos, um dos presentes comentou que, em sua opinião, ditadura e totalitarismo eram sinônimos, o que gerou uma discussão acalorada que motivou esta reflexão que eu já vinha querendo fazer há algum tempo, visto que é evidente que muitas pessoas confundem os dois termos.

Primeiramente, esses são conceitos com mais de 2000 anos de origem; no entanto, tendemos a usá-los de forma intercambiável, como se fossem semelhantes. Já ouvi o regime venezuelano ser descrito como totalitário e os cubanos como a "ditadura dos irmãos Castro". Então, sem ser teórico nem nada parecido, mergulho em textos e em minhas próprias experiências, porque os livros, embora fundamentais, garanto que os medos e as consequências de ter o carrasco morando na vizinhança são avassaladores.

A ditadura, que nos chega da República Romana, era uma função legal e temporária do governo, designada, pelo menos em teoria, pelo Senado, sendo que o abuso desse mandato levou à sua conversão em um governo injusto, sem leis nem fim, alheio à vontade popular.

Talvez seja muito espinhoso definir o tempo e o lugar da primeira ditadura como a conhecemos hoje, ainda mais espinhoso identificar o pioneiro que reivindicou o título, aquele que, longe da toga pretexta, seja de tanga ou de smoking, dizia para si mesmo e para os outros, num machismo delirante: "Eu sou o homem".

Os ditadores vieram em todas as formas e tamanhos. Militares, civis, religiosos e, claro, insurrecionistas — todos eles sempre ávidos por usar o adjetivo "revolucionário", um termo ao qual cada pessoa aplica o significado que prefere, como se pode ver em Cuba. Por exemplo, Fulgencio Batista chamou o golpe militar de 10 de março de 1952 de revolucionário, e Fidel Castro caracterizou o ataque ao Quartel Moncada em 26 de julho de 1953 da mesma maneira.

O totalitarismo é muito mais recente que a ditadura, outra invenção europeia que demonstra que do velho mundo recebemos coisas muito boas, juntamente com muitas desastrosas, como os temas que estamos abordando, contribuições culturais que rivalizam com a insanidade de muitos de nossos líderes.

O totalitarismo, segundo Hannah Arendt, a pessoa mais conhecedora do assunto, surgiu em 1922 na Itália, com Benito Mussolini formulando sua visão de governo: “tudo dentro do Estado, nada fora do Estado, nada contra o Estado”, um propósito que Fidel Castro repetiu quando disse a intelectuais na Universidade de Havana, em junho de 1961: “Dentro da Revolução, tudo; contra a Revolução, nada”, uma expressão que os estudiosos cubanos da época entenderam como dirigida exclusivamente à cultura, quando na realidade o que ele fez foi marcar Cuba como seu território, como a verdadeira besta que era. No entanto, considero que o pioneiro do pensamento totalitário, aquele que primeiro tornou pública essa intenção, foi Luís XIV, quando declarou no parlamento em Paris, em abril de 1655, com apenas 16 anos: “Eu sou o Estado”.

Hannah Arendt afirma que o totalitarismo busca dominar os seres humanos por dentro, destruindo sua capacidade de pensar livremente e, simultaneamente, destruindo a vida pública de seus súditos. Ele estabelece mecanismos de controle social, como o terror total, expresso por meio de agressão constante contra a população em geral, e não apenas contra a oposição; propaganda de massa ou totalitária; e o uso da ideologia para abordar as preocupações dos governados.

Trata-se de uma proposta abrangente: o Estado exerce controle absoluto ou altamente restritivo sobre a propriedade, eliminando ou subordinando os bens que não se alinham aos interesses do sistema. Simultaneamente, enquanto o centro do poder aparenta estabilidade, os elementos circundantes encontram-se em constante fluxo e instabilidade. Contudo, o mais afetado pelo totalitarismo é o ser humano. Os danos sofridos são terríveis e altamente contagiosos.

Tanto as ditaduras quanto o totalitarismo geram violência e maldade; ambos cometem crimes horrendos e são profundamente corruptos. No entanto, o único sistema absolutamente predatório é o totalitarismo, a ponto de levar nosso ilustre pensador a escrever sobre "a banalidade do mal", onde uma pessoa comum devasta seu entorno ao seguir ordens sem pensar nas consequências, como aconteceu em Cuba nas últimas décadas.


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