
Por: Dagoberto Valdés Hernández - 27/07/2026
Colunista convidado.Há uma crescente consciência da dificuldade em reparar os danos antropológicos que, sem dúvida, representam o desastre mais profundo e duradouro causado pelo totalitarismo comunista em Cuba.
Alguns, sem terem estudado o assunto, chegam a afirmar que o dano é tão severo que é irreversível, impossível de curar. Nesta coluna, gostaria de compartilhar algumas das conclusões da minha tese de doutorado sobre "Danos Antropológicos e sua Cura em Cuba", que já foi publicada e está disponível na Amazon.
Acredito que esses esclarecimentos podem ajudar a corrigir logo no início alguns erros que, como acontece com qualquer conceito novo, acompanham sua disseminação.
O conceito
Acredito que o primeiro passo é relembrar e consolidar o conceito ao qual chegamos na pesquisa de doutorado:
“O dano antropológico causado pelo totalitarismo em Cuba consiste no enfraquecimento, lesão ou colapso das faculdades cognitivas, afetivas e volitivas, bem como das dimensões ética, social e espiritual da pessoa humana, total ou parcialmente, dependendo da profundidade da deterioração ou desordem causada; contudo, a essência da pessoa humana e sua dignidade sempre subsistem” (Valdés, D. 2019).
É importante esclarecer aqui, ainda mais, o que foi identificado nesse conceito:
– O dano tem três níveis de profundidade: enfraquecimento, lesão ou colapso. Nem todos sofreram danos com a mesma gravidade. Nem todos se curarão da mesma maneira.
O dano é infligido a algumas ou a todas as três faculdades do ser humano: cognitiva, emocional e volitiva. Nem todos sofreram o mesmo dano à sua capacidade de pensar, sentir e agir. Às vezes, notamos a dificuldade em pensar por nós mesmos e observamos o embotamento da consciência crítica e do discernimento. Além disso, vemos uma falta da inteligência emocional necessária, um enfraquecimento da força de vontade e uma falta de perseverança em fazer o bem.
– Os danos também podem afetar as três dimensões da pessoa humana: ética pessoal, convivência social e desenvolvimento espiritual-transcendente.
– No entanto, o mesmo conceito afirma claramente que, apesar de todo o dano que a exploração antropológica possa causar: “a essência da pessoa humana e a sua dignidade permanecem sempre”.
Mal-entendidos e imprecisões
Frequentemente constatamos que a disseminação e o uso do termo "dano antropológico" têm sido acompanhados de equívocos e imprecisões, tais como:
– Que o dano antropológico afeta a própria essência e dignidade da pessoa ferida. Trata-se de um erro que ignora o que está previsto no próprio conceito e que pode ter consequências gravíssimas, como crimes contra a humanidade, extermínio e violações de direitos humanos inalienáveis, devido à falsa noção de que, ao ser gravemente ferida ou quebrada, a pessoa perde sua essência, seu “ser” humano e sua dignidade inviolável.
Outra imprecisão reside na suposição de que, pelo fato de esta investigação ter se limitado aos danos antropológicos causados pelo totalitarismo em Cuba, esses danos não existem em outros sistemas, períodos históricos ou locais geográficos. É preciso esclarecer que limitar a investigação a um fenômeno, causa, tempo e lugar específicos para determinar se houve danos a seres humanos não exclui nem nega a possibilidade de outros tipos de danos em outros sistemas sociopolíticos, em outros países e em outros períodos da história da humanidade. Por outro lado, afirmar a existência de fenômenos semelhantes em outros lugares e sistemas não nega nem justifica sua existência especificamente em Cuba sob este sistema.
Outro equívoco seria presumir que o dano infligido aos cubanos começou única ou exclusivamente com o surgimento do sistema totalitário em Cuba. Embora seja evidente que períodos e sistemas anteriores deixaram suas próprias marcas negativas, isso não nega nem justifica o dano causado pelo regime atual, o qual especificamos ao estudar as causas e consequências que caracterizam esse tipo de dano antropológico.
Outro erro seria confundir ou identificar as causas e consequências do dano antropológico com traços da identidade e idiossincrasia cubana: “É assim que somos”, “Esses danos fazem parte do nosso ethos”, do nosso “ser” cubano. Isso é falso, porque se é dano, não é uma questão de identidade, embora todas as identidades, culturas e idiossincrasias, precisamente por serem humanas, sejam limitadas e imperfeitas. Uma realidade é essa imperfeição, e outra realidade é o dano infligido de fora da pessoa humana por um sistema político, econômico e social que vai contra a natureza humana, nega a verdade, estabelece a vida na mentira e na pós-verdade, reescreve a história e estabelece um controle totalitário sobre todas as esferas em que a pessoa vive e se desenvolve.
– E, por último e mais gravemente, seria preciso considerar que o dano antropológico é irreparável, irreversível, condenando-nos à fatalidade do fracasso da condição humana.
Cura
Nada poderia estar mais longe da nossa pesquisa: consideramos que a “subsistência da essência e da dignidade de cada pessoa humana” é o fundamento principal e o ponto de partida das três etapas de recuperação dos danos antropológicos:
1. Conversão antropológica: que é a consciência de que fomos prejudicados, o discernimento de quais faculdades e dimensões fomos prejudicados e a decisão de que queremos mudar e nos curar.
2. Cura antropológica: que é uma “cura pela raiz”, partindo da raiz, eliminando as causas que provocaram o dano, buscando remédios éticos, cívicos e espirituais que contribuam para curar as consequências do dano.
3. Avançar rumo ao desenvolvimento humano integral por meio de um processo educativo pessoal e comunitário que fortaleça as experiências de um projeto humano e nacional: personalista, ético, social e transcendente, como nos legou Varela e Martí.
Essas propostas representam um possível roteiro para a recuperação dos danos antropológicos causados pelo totalitarismo em Cuba.
A família, a Igreja e outros espaços e projetos educativos têm uma enorme e muito séria responsabilidade de encorajar, salvaguardar e garantir uma cura profunda e duradoura dos danos antropológicos, para que estes não se tornem um obstáculo à vida em liberdade, democracia e progresso material, moral e espiritual.
Cuba merece isso.
As opiniões aqui publicadas são de inteira responsabilidade de seus autores.