Da Rerum Novarum à Magnifica Humanitas

Beatrice E. Rangel

Por: Beatrice E. Rangel - 27/05/2026


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A recente publicação da encíclica Magnifica Humanitas, do Papa Leão XIV, reabre um dos grandes dilemas históricos da civilização: como preservar a dignidade humana em meio a uma revolução tecnológica que transforma radicalmente a vida econômica e social.

Seu conteúdo inevitavelmente evoca a crise que a humanidade enfrentou no final do século XVIII, quando começou a mecanização da produção têxtil e a máquina a vapor inaugurou a Revolução Industrial. A partir de então, inúmeras tarefas antes realizadas por humanos passaram gradualmente para o controle de máquinas. Surgiram as primeiras fábricas, os métodos de produção foram transformados e inovações decisivas apareceram: a manufatura mecanizada, novos processos metalúrgicos e químicos, o uso extensivo da energia hidráulica e do vapor e o desenvolvimento de máquinas-ferramenta.

A produtividade aumentou drasticamente e o crescimento econômico atingiu níveis sem precedentes. No entanto, esses avanços se basearam na exploração brutal da força de trabalho. Nenhum escritor retratou essa realidade melhor do que Charles Dickens, que descreveu um mundo social onde a pobreza, a fome, o trabalho forçado e a indiferença institucional reduziam milhões de pessoas a meras engrenagens da máquina industrial.

Foi precisamente para responder a essa realidade que o Papa Leão XIII publicou a histórica encíclica Rerum Novarum em 1891. Nela, ele defendeu explicitamente o direito dos trabalhadores de se organizarem em sindicatos, afirmou que os salários deveriam ser suficientes para garantir uma subsistência digna para as famílias e rejeitou tanto o socialismo revolucionário quanto o capitalismo laissez-faire.

Leão XIII acreditava que a eliminação da propriedade privada ameaçava a liberdade individual e a estabilidade familiar, mas também afirmava que o Estado tinha a obrigação moral de proteger os trabalhadores e garantir condições de trabalho justas. Para a Igreja, além disso, havia uma responsabilidade ainda maior: oferecer os princípios éticos necessários para preservar a coesão social em tempos de rápida transformação econômica.

Hoje, a humanidade enfrenta um desafio comparável, embora possivelmente ainda mais profundo: a ascensão da inteligência artificial. Esse fenômeno representa o estágio avançado da revolução tecnológica que começou com a digitalização na década de 1990 e que já começou a alterar estruturalmente o mercado de trabalho, especialmente nas economias desenvolvidas.

Durante grande parte do século XX, as sociedades industriais criaram milhões de empregos rotineiros de renda média — trabalhadores de escritório, contadores, técnicos administrativos e operários qualificados — que permitiam às pessoas sustentar uma família sem formação universitária. A automação digital, a computação avançada e a inteligência artificial têm substituído muitas dessas funções. Como resultado, o crescimento do emprego está cada vez mais concentrado nos extremos da escala salarial: ocupações altamente qualificadas e empregos precários e de baixa remuneração, enquanto o espaço econômico para a classe média está diminuindo progressivamente.

Nesse contexto, a Magnifica Humanitas assume uma relevância extraordinária. Segundo diversas interpretações, a encíclica surgiu de extensas conversas com cientistas, engenheiros, educadores, líderes políticos e famílias preocupadas com o futuro das próximas gerações. O documento levanta questões éticas fundamentais sobre o lugar do ser humano em uma civilização cada vez mais governada por algoritmos.

Entre as preocupações mais urgentes está o desenvolvimento de sistemas de armas autônomas e algoritmos capazes de determinar o acesso a emprego, crédito, saúde ou segurança pública com base em dados falhos, vieses ideológicos ou critérios opacos, impossíveis de serem auditados pelos cidadãos.

Curiosamente, essas mesmas preocupações marcaram os últimos anos intelectuais de Henry Kissinger, que se tornou uma das vozes mais influentes a alertar sobre os riscos geopolíticos e filosóficos da inteligência artificial. Juntamente com Eric Schmidt e Craig Mundie, Kissinger publicou o livro *A Era da IA: E o Nosso Futuro Humano*, no qual argumentou que a velocidade do desenvolvimento da IA ​​poderia se revelar tão importante e potencialmente desestabilizadora quanto o surgimento das armas nucleares.

Kissinger alertou que uma inteligência artificial suficientemente avançada poderia corroer não apenas as estruturas econômicas e políticas, mas também a própria consciência humana, enfraquecendo a capacidade das instituições democráticas de exercer controle sobre tecnologias que evoluem mais rapidamente do que as estruturas regulatórias e éticas tradicionais.

Vista sob a perspectiva da Magnifica Humanitas e das reflexões de Kissinger, a inteligência artificial representa talvez o maior desafio civilizatório desde o alvorecer da modernidade. A questão central não é mais meramente tecnológica ou econômica, mas profundamente moral e filosófica: será que a humanidade será capaz de manter o controle sobre uma força criada por sua própria inteligência antes que essa força acabe por remodelar a própria essência do que significa ser humano?

Em última análise, o desafio reside em trazer o gênio que escapou da garrafa da criatividade humana de volta aos canais do controle ético, político e civilizacional.


As opiniões aqui publicadas são de inteira responsabilidade de seus autores.