
Por: Beatrice E. Rangel - 07/09/2026
Para quem pretende compreender plenamente a tragédia cubana, um dos maiores desafios é identificar quem compõe o elenco principal, qual a contribuição de cada um para o espetáculo e, sobretudo, qual deve ser o comportamento dos espectadores durante a apresentação.
De fato, assim como no aclamado Rocky Horror Show dos anos setenta, os últimos acontecimentos em Cuba produzem horror, perplexidade e frustração.
Horror diante da grave crise humanitária que deixou grande parte da população na miséria. Perplexidade com as notícias de um possível acordo entre o regime cubano e o governo dos Estados Unidos que replicaria a fórmula aplicada ao regime venezuelano. E frustração com a evidente estagnação de uma situação que está exaurindo o povo cubano sem aproximá-lo de seu verdadeiro destino: viver em liberdade.
Cuba parece presa em um labirinto cujas saídas levam, uma após a outra, ao enfraquecimento da sociedade civil e, consequentemente, ao adiamento do desenvolvimento democrático. Enquanto isso continuar, a ilha permanecerá prisioneira de homens fortes e oportunistas mais interessados em preservar seu poder e riqueza do que em garantir o bem-estar dos cubanos.
Assim como em The Rocky Horror Show, na tragédia cubana encontramos três protagonistas.
O primeiro grupo é o povo cubano, neutralizado durante décadas por meio de sofisticados mecanismos de repressão e pela válvula de escape da emigração — principalmente para Miami e, em menor escala, para outros destinos —, que serviu para reduzir periodicamente as tensões internas. Em nossa analogia, os desavisados Brad e Janet representam o povo cubano.
O segundo protagonista são os Estados Unidos, que desempenham um papel semelhante ao do Dr. Frank-N-Furter: o cientista excêntrico obcecado por conduzir experimentos cujos resultados ele dificilmente consegue controlar. Sua criação é Rocky, um humanoide com musculatura perfeita que logo desenvolve vontade própria.
Em nossa tragédia, Rocky representa o regime cubano.
O drama se desenrola através da interação desses três personagens. Brad e Janet vivenciam as ilusões, extravagâncias e tormentos de um universo povoado por seres perturbadores. Frank-N-Furter se deleita com seus experimentos, convencido de que pode controlar o que ajudou a criar. E Rocky logo descobre que também pode manipular aqueles ao seu redor.
Algo semelhante vem acontecendo há décadas com Cuba. Os Estados Unidos tentaram sucessivamente o isolamento, as sanções, a negociação, a abertura e a pressão, sempre buscando uma fórmula capaz de conduzir a uma transição democrática. Mas essa transição é extraordinariamente difícil em uma nação cuja sociedade civil tem sido sistematicamente enfraquecida por quase setenta anos.
Entretanto, seus governantes aperfeiçoaram um talento peculiar: extrair rendas primeiro dentro de suas próprias fronteiras e depois além delas, justificando tudo com a narrativa da construção de uma nova ordem, supostamente livre de exploradores e explorados. Com essa promessa, subjugaram o povo cubano por quase sete décadas.
Mas todo espetáculo eventualmente chega ao seu ato final.
Assim que Brad e Janet finalmente conseguem escapar do universo delirante de Frank-N-Furter, o povo cubano começa a entender que nenhuma potência estrangeira pode substituí-los na tarefa fundamental: reconquistar sua liberdade.
Os Estados Unidos podem facilitar, pressionar, negociar ou cometer erros. O regime pode tentar prolongar a situação indefinidamente. Mas o resultado final dependerá do próprio povo cubano.
Porque, para encerrar o Rocky Horror Show cubano, não basta mudar o roteiro. Rocky precisa deixar o palco para sempre.
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