
Por: Beatrice E. Rangel - 15/04/2026
A retumbante vitória de Peter Magyar na Hungria pôs fim à carreira política de Viktor O'Orbán, cuja visão autoritária começava a destruir os alicerces da democracia liberal estabelecida pelo povo húngaro após o colapso da União Soviética. Essa conquista do povo húngaro teve suas raízes em outubro de 1956, quando sua rejeição à sovietização do país se expressou em protestos em massa que levaram o primeiro-ministro Imre Nagy a abolir o sistema de partido único, exigir a retirada das tropas soviéticas e rejeitar a adesão ao Pacto de Varsóvia, declarando neutralidade no conflito Leste-Oeste. Em novembro, o país foi invadido e reocupado pela União Soviética.
Com o colapso da União Soviética, a Hungria dedicou-se a alcançar seus ideais democráticos, brutalmente reprimidos em 1956. De 1989 a 2010, o país lançou as bases para o desenvolvimento de uma democracia liberal. Estabeleceu eleições livres, o Estado de Direito e as liberdades civis, tornando-se uma das transições pós-comunistas mais bem-sucedidas. A Hungria ingressou na OTAN em 1999 e na União Europeia em 2000, enviando fortes sinais de consolidação democrática. Contudo, a partir de 2010, com a eleição de Viktor O'Orbán como primeiro-ministro, a Hungria vivenciou um processo de declínio democrático constante. Seu partido, o Fidesz, conquistou uma supermaioria constitucional, o que permitiu profundas mudanças institucionais. As reformas enfraqueceram a independência do judiciário; concederam poderes de supervisão governamental sobre a mídia; e alteraram as regras eleitorais de maneiras que, segundo críticos, favoreceram os governantes em exercício. Em resumo, a partir de 2010, a Hungria perdeu sua qualidade democrática, transformando-se em um regime híbrido ou "iliberal" que, embora mantenha eleições, enfraqueceu os mecanismos de controle e equilíbrio da democracia liberal.
Mas o povo húngaro decidiu pôr fim a essa deterioração e votou esmagadoramente por uma opção política de centro-direita que lhes garante maior e melhor entendimento com a União Europeia e o rompimento com o fardo da relação com a Rússia, cuja política externa havia alcançado a vitória histórica de transformar a Hungria na ponta de lança contra a União Europeia e na arma usada para destruir a Ucrânia. Portanto, sua saída do poder foi amplamente celebrada em toda a Europa.
Na América Latina, também estamos vivenciando um retrocesso democrático. Levados ao desespero pela ineficiência e corrupção de nossos governos, passamos a celebrar ditadores "descolados" e qualquer líder político que afirme se opor ao Foro de São Paulo. Parece que não nos importamos com o fato de que esses opositores do Foro de São Paulo pretendem destruir os próprios fundamentos da democracia, que se resumem à liberdade de expressão e de associação política, e a instituições fortes capazes de limitar o poder dos poderes executivo, legislativo e judiciário. Em suma, estamos testemunhando o ressurgimento de uma observação feita pela Embaixadora Jeanne Kirkpatrick quando as ditaduras militares começaram a florescer na América Latina, operando em nome do anticomunismo com as mesmas práticas da União Soviética. Naquela ocasião, a Embaixadora Kirkpatrick observou que as filiações ideológicas eram irrelevantes porque, em última análise, tanto o totalitarismo soviético quanto o autoritarismo latino-americano prosperavam com a supressão da liberdade.
Continuamos a nos comportar como tribos em vez de cidadãos. E achamos normal que qualquer déspota possa ser corrupto enquanto a economia crescer; que ele possa controlar a mídia enquanto permitir campeonatos esportivos; e que ele possa ser repressivo enquanto espancar, matar ou prender os filhos de outras pessoas.
É por isso que temos democracias de fachada que não resistem ao primeiro golpe de uma crise econômica ou política. Porque uma verdadeira democracia se constrói, como provaram os húngaros, poloneses, tchecos e lituanos, por meio do esforço organizado e coletivo da sociedade civil, que primeiro organiza suas cidades, depois suas províncias e, finalmente, cria e sustenta um poder central com limites à sua autoridade. Esse poder é limitado pelo poder dos municípios e províncias e pela interação entre os poderes executivo, legislativo e judiciário. Em outras palavras, como qualquer boa construção, o segredo da democracia reside em seu equilíbrio. É por isso que os húngaros se livraram de Urbano, que tentou destruir esse equilíbrio para estabelecer uma espécie de autoritarismo com tendências russas.
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