A guerra no Irã afetará os resultados das eleições parlamentares nos Estados Unidos?

Beatrice E. Rangel

Por: Beatrice E. Rangel - 21/04/2026


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Muitos analistas argumentam que a guerra no Irã terá consequências eleitorais para o governo, podendo inclusive se tornar o fator que levará à sua derrota.

No entanto, acredito que não há evidências conclusivas nas últimas décadas de que qualquer evento internacional isolado tenha influenciado decisivamente o resultado das eleições nos Estados Unidos, seja a favor ou contra uma determinada opção política. Os eleitores americanos tendem a basear suas decisões predominantemente em questões internas, enquanto os eventos internacionais servem mais como contexto do que como fator determinante.

Desde a sua criação, as questões internas têm dominado as decisões eleitorais nos Estados Unidos. De fato, pesquisas realizadas por organizações como o Pew Research Center mostram consistentemente que as principais prioridades dos eleitores são, em primeiro lugar, a economia (empregos e inflação), seguida por saúde, imigração e segurança. A política externa — guerras, alianças ou estratégia global — normalmente ocupa uma posição muito inferior nessas questões. Na prática, para a maioria dos eleitores, os assuntos internacionais constituem um pano de fundo, e não o foco central de suas decisões.

No entanto, a política externa assume maior relevância em contextos específicos: quando os Estados Unidos estão diretamente envolvidos em um conflito armado (como no Iraque após 2003), quando ocorre uma grande crise internacional (como ataques terroristas ou tensões entre grandes potências) ou quando há efeitos econômicos diretos resultantes desses eventos (como aumentos nos preços do petróleo ou interrupções nas cadeias de suprimentos).

Assim, por exemplo, após os ataques de 11 de setembro, a segurança nacional dominou a agenda eleitoral. Da mesma forma, a tensão associada à Guerra do Iraque ajudou a moldar o clima político que favoreceu a vitória de Barack Obama em 2008. Em tempos de crise, portanto, fatores internacionais podem ganhar peso na decisão do eleitor.

Outro fator relevante é a diferença geracional. Os eleitores mais jovens tendem a demonstrar menos interesse na política externa tradicional e maior preocupação com questões como as mudanças climáticas (incluindo sua dimensão global), os direitos humanos e a prevenção de intervenções militares. Os eleitores mais velhos, por outro lado, tendem a priorizar a segurança nacional, o poderio militar e a estabilidade geopolítica.

Ainda assim, mesmo entre os eleitores mais velhos, a política externa raramente supera as condições econômicas como critério principal para a tomada de decisões eleitorais.

No entanto, a política externa desempenha uma função adicional: serve como um prisma através do qual os eleitores avaliam a qualidade da liderança. Permite-lhes avaliar o discernimento, a prudência e as capacidades de gestão daqueles que detêm o poder. Através dela, os cidadãos avaliam se um líder prioriza o uso da força ou a construção de consensos, bem como a sua inclinação para a moderação ou para posições mais extremistas.

Nesse sentido, uma guerra — como a que envolve atualmente o Irã — pode influenciar indiretamente o comportamento eleitoral, moldando a percepção da liderança presidencial, a força da equipe governamental e a capacidade de assumir ou evitar riscos.

Em resumo, em tempos normais, as questões de política externa têm peso limitado nas decisões dos eleitores. Em contextos de crise ou guerra, elas podem se tornar um fator relevante e até decisivo. No caso específico de um conflito com o Irã, se seus efeitos econômicos — como o aumento dos preços dos combustíveis e dos bens importados — persistirem, ou se ocorrerem ataques contra interesses dos EUA no exterior, a política externa poderá adquirir peso significativo na eleição do novo Congresso.

Mas, em termos gerais, o eleitor americano continua a votar principalmente com a carteira e apenas secundariamente com os olhos no mundo.


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