A defesa da intervenção estrangeira no Irã

Luis Fleischman

Por: Luis Fleischman - 05/02/2026


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Como acontece com muitos desafios contemporâneos, o argumento a favor da intervenção estrangeira no Irã tem um precedente claro: a intervenção da OTAN na antiga Iugoslávia contra o regime de Slobodan Milošević.

Aquele regime não representava uma ameaça militar direta à OTAN. A intervenção foi, antes, moral e humanitária, realizada em resposta à violência em massa, à limpeza étnica e a uma campanha de brutalidade sistemática que se seguiu à desintegração da Iugoslávia multinacional.

Essas intervenções marcaram um ponto de virada na política internacional. Elas legitimaram o princípio de que a proteção das populações civis pode prevalecer sobre a soberania nacional absoluta e corroeram a distinção tradicional entre repressão interna e conflito internacional quando direitos humanos fundamentais estão em jogo.

Em 1995, a OTAN lançou a Operação Força Deliberada, uma campanha aérea contínua contra alvos militares sérvios da Bósnia. Quatro anos depois, em 1999, a OTAN conduziu a Operação Força Aliada, atacando a infraestrutura militar sérvia e os bens do regime no Kosovo para proteger a população civil albanesa de assassinatos em massa.

Essas ações obrigaram a Sérvia a negociar os Acordos de Dayton, puseram fim à Guerra da Bósnia e forçaram a retirada das forças sérvias do Kosovo. O regime de Milošević acabou por ruir. Embora a região continue a enfrentar desafios políticos, étnicos e institucionais, não vivenciou guerras civis ou interestatais de grande escala desde então.

Vale ressaltar que esse modelo de intervenção foi replicado na Líbia em 2011 e culminou na queda do Coronel Gaddafi (com o apoio de uma resolução do Conselho de Segurança da ONU), mas não foi aplicado em outras catástrofes humanitárias — como as que ocorreram na Síria, no Sudão ou na Nigéria — onde a resposta internacional se limitou, em grande parte, a sanções econômicas em vez de ações militares.

Será que o caso da antiga Iugoslávia poderá repetir-se no Irã?

O Irã representa uma oportunidade convincente para reviver o precedente dos Balcãs.

As tensões atuais entre os Estados Unidos e a Europa podem dificultar a coordenação transatlântica. Idealmente, o governo americano conseguiria persuadir seus aliados europeus a participar de uma campanha aérea direcionada contra bases militares do regime e a Guarda Revolucionária Iraniana.

Assim como o regime de Milošević, a teocracia iraniana perpetrou assassinatos em massa contra sua própria população, matando dezenas de milhares de pessoas em questão de dias. Alguns observadores compararam essas atrocidades a Babi Yar, onde mais de 30.000 judeus foram assassinados pelos nazistas em 1941. Imagine, esse é o mesmo número de vítimas que a junta militar argentina alegou ter durante seus sete anos no poder, mas em um período de apenas dois dias. De uma perspectiva de direitos humanos, o argumento moral dispensa maiores explicações.

Ao contrário do regime de Milošević, porém, o Irã representa uma ameaça direta e persistente além de suas fronteiras. A República Islâmica desestabiliza o Oriente Médio, ameaça Israel e põe em risco os interesses ocidentais, incluindo os dos Estados Unidos, da Europa e da América Latina. Na Europa, as atividades criminosas e terroristas do Irã são amplamente documentadas. Na América Latina, o Irã e o Hezbollah mantêm uma presença profundamente enraizada.

Caso a OTAN não esteja disposta a intervir, os Estados Unidos e Israel não devem descartar a possibilidade de agir de forma independente. As forças aliadas do Irã — as milícias pró-Irã no Iraque e na Síria, bem como os houthis no Iêmen — têm atacado repetidamente as forças americanas e seus aliados, incluindo a Arábia Saudita, e representam uma ameaça para os parceiros dos EUA em toda a região do Golfo Pérsico.

Se os Estados Unidos optarem por não intervir, Israel poderá não ter outra alternativa senão agir sozinho. Da perspectiva israelense, uma solução política em Gaza e o desarmamento do Hamas permanecerão impossíveis enquanto o regime iraniano continuar a armar, financiar e dirigir seus grupos aliados. Além disso, não se pode esperar que Israel continue, como tem feito nas últimas duas décadas, a suportar a ameaça persistente representada pelo programa nuclear iraniano e pelo patrocínio do terrorismo em suas fronteiras.

É evidente que um Irã com armas nucleares constituiria uma grave ameaça global, desencadeando a proliferação regional e aumentando drasticamente o risco de uma guerra em larga escala.

Existem várias linhas de ação — pela OTAN, pelos Estados Unidos e Israel, ou apenas por Israel. O que é indiscutível, no entanto, é que, pelo bem do povo iraniano, da estabilidade regional e da segurança global, o regime dos aiatolás deve chegar ao fim.

Publicado em infobae.com terça-feira janeiro 27, 2026



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