
Por: Carlos Sánchez Berzaín - 08/06/2026
O golpe de Estado em curso, que viola os direitos humanos do povo boliviano, exige a renúncia do presidente Rodrigo Paz e colocou as democracias de toda a América em alerta, é apenas um sintoma da crise, não a crise em si. Desde 2003, a Bolívia sofre com a destruição de sua sociedade, educação, sistema judiciário, Estado de Direito, instituições, economia e unidade nacional, além da tentativa de liquidar a nação boliviana. O país tem sido vítima do socialismo do século XXI que, sob o comando de Evo Morales e seu grupo criminoso, transformou a Bolívia em uma ditadura/narcoestado.
Com o golpe de Estado perpetrado em 17 de outubro de 2003 contra o presidente Gonzalo Sánchez de Lozada, teve início a destruição da Bolívia como república independente e soberana. Destruíram as Forças Armadas do país, acusando falsamente os comandantes militares democraticamente eleitos dos crimes cometidos pelos líderes do golpe. Planejaram a tomada do poder na Polícia Nacional e no sistema judiciário, o desmantelamento do sistema regulatório, a eliminação da independência do Banco Central, o fim da Participação Popular, a subordinação do Parlamento e muito mais.
Os membros do Alto Comando de 2003 foram julgados e perseguidos juntamente com o presidente deposto e seus ministros. Os generais e oficiais da República não eram políticos; eles haviam cumprido ordens dentro da estrutura da Constituição e das leis, e seu comando era baseado no mérito, na promoção e nos mecanismos legais e institucionais da democracia. Mesmo assim, foram presos, condenados e humilhados. Assim terminou na Bolívia — com repercussões regionais — a possibilidade de as Forças Armadas cumprirem seu papel constitucional como “Instituição Fundamental da Nação”. Foi a “vacina contra Castro”.
Com controle total do sistema judiciário – aplicando o método de Cuba e Venezuela, com cubanos e venezuelanos atuando – Morales perseguiu e ordenou a condenação de mais comandantes militares com falsas acusações, como a dos "mísseis chineses", acusando falsamente generais da democracia de terem entregado material – obsoleto e descartado – ao imperialismo norte-americano.
Evo Morales renunciou em 2019 devido a fraude eleitoral e fugiu para o México com a ajuda de seus "opositores funcionais". A presidente Jeanine Añez assumiu a presidência; "o ditador saiu, mas não a ditadura". O sistema ditatorial de leis, a destruição das instituições, o narcoestado plurinacional, a proliferação de confrontos com o objetivo de destruir a nação, a corrupção e a impunidade, o controle do sistema judiciário com "promotores assassinos e juízes carrascos", a fraude eleitoral e muito mais permaneceram intactos. O poder ditatorial reconheceu a presidente Añez, depois se recusou a reconhecê-la e, posteriormente, a prendeu, enquanto comandantes militares foram perseguidos, presos, condenados e humilhados.
As promoções por mérito foram desconsideradas por Evo Morales e Luis Arce, que transformaram as Forças Armadas e a Polícia Nacional em entidades manipuladas pelo regime e sujeitas à intervenção de Cuba, Venezuela e Irã. Destruíram a "doutrina institucional", alterando os requisitos de admissão e os currículos. Colocaram as Forças Armadas a serviço do crime transnacional ao criarem a "Escola Anti-Imperialista ALBA" em conjunto com as ditaduras de Cuba e Irã. A Polícia Nacional serviu ao narcoestado plurinacional, expulsando a DEA e se envolvendo em corrupção.
Os membros da Suprema Corte de Justiça da Nação, do Tribunal Constitucional, da Procuradoria-Geral da República, do Conselho da Magistratura, do Tribunal Eleitoral Nacional e de outros órgãos, com mandatos democráticos vigentes, foram destituídos com a promulgação – após falsificações, massacres sangrentos e fraudes – da constituição do Estado plurinacional, que alterou os nomes das instituições para ocupá-las.
A organização do Poder Executivo, a descentralização administrativa, a participação popular (empoderamento dos municípios), o sistema regulatório, o Banco Central, a Lei de Substâncias Controladas e o combate ao narcotráfico, a Lei de Terras (INRA), o Sistema de Garantia de Investimentos, o Sistema Nacional de Educação, a Previdência Social, a Medicina e muitos outros foram destruídos e substituídos por “leis infames” que violam os direitos humanos em vez de protegê-los.
Eles alteraram códigos e procedimentos, estabeleceram tribunais especiais, justiça paralela, prenderam e assassinaram defensores da liberdade, garantindo impunidade para criminosos e para os novos ricos do regime.
Eles destruíram o Poder Legislativo alterando sistemas, reduzindo poderes, anulando a imunidade parlamentar, operando mecanismos de subordinação e transformando o chamado "primeiro poder do Estado" em um apêndice do poder central.
A realidade objetiva, a crise e a vasta documentação comprovam as “violações dos direitos humanos”, a inexistência do “estado de direito”, a falta de separação e independência dos poderes públicos, a impossibilidade de “organização política livre” (presos políticos e exilados) e o sigilo do cadastro eleitoral.
Hoje, nenhum dos elementos essenciais da democracia existe na Bolívia e, enquanto isso continuar, a crise persistirá, se agravará e mergulhará os bolivianos da pobreza na miséria. O presidente Rodrigo Paz assumiu a presidência, mas não o poder.
*Advogado e Cientista Político. Diretor do Instituto Interamericano para a Democracia.
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